A Garota do Sangue Vermelho

Na hora de realizar um plano marcado, em frente a uma escola e prestes a sequestrar uma garotinha, um homem não apenas percebe que há algo além do naturalmente visível em comando no universo, mas também descobre que teria sido melhor nunca ter aceito participar de uma jornada tão irresponsável quanto aquela na qual ele e uma mulher estavam. Tudo por conta de um sangue, tudo por conta da possibilidade de algo superior ao primeiro plano do ser.


Tinha uma van parada na frente da escolinha. Ela era óbvia, não estava escondida, mas ninguém chamou a polícia.

Tinha um homem parado junto à van que estava na frente dessa escolinha. Talvez não tivessem chamado a polícia por ele ter um rosto amigável. Não deve ter menos do que sessenta anos, aquele bigode e cabelo grisalhos não mentem. Ele estava fumando um cigarro que tinha gosto de merda. Queria ter comprado o da marca que conhecia, mas a venda na frente da escolinha não vendia desses.

Ele pensou na hora que era malicioso ter uma loja vendendo essas coisas bem em frente a uma escola. Comprou mesmo assim. A vontade de fumar falou mais alto. Fumou tossindo, fazendo um revezamento. Tosse, fuma, tosse, fuma, fuma, tosse.

Muito pouca gente passando por essa rua, ele pensou fumando, a gente escolheu bem o lugar, isso é verdade.

A mulher, Andréia, saiu da escolinha com a garota presa nos braços. Havia um saco preto na cabeça da garota, então o velho não soube de certeza, mas a visão mostrava a mulher querendo abafar os gritos. Era inútil, ele pensou, por isso mesmo havia lhe dado uma fita.

Não quis perguntar como foi que ela fez para tirar a garota da sala de aula. Mentiu dizendo que era mãe, tia ou irmã? Irmã ninguém acreditaria, muito menos avó, então provavelmente tia, pois se dissesse mãe seria arriscado demais. Se tivesse dito mãe, então era tonta. Tontas ela e a escola que não checou.

– Abre a porta de trás – ela mandou.

– Abro. Não vai esmagar a garota, assim não vamos conseguir nada.

– Cale a boca e abre a porta.

O velho abriu a porta. Foi uma complicação porque as duas mãos estavam ocupadas. Jogou tanto o cigarro quase nada fumado, quanto o maço com os restantes no chão.

A mulher jogou a garota na parte de trás da van e correu para o banco do passageiro. O velho já tinha chegado no do motorista, pisou no acelerador para que abafasse os gritos da garota. Olhou para trás. Com a velocidade, a garota ficava batendo num e noutro canto. Ele queria desacelerar, mas sabia que não podia até pelo menos saírem da cidade.

– Pare de olhar pra ela, olhe para a rua.

– Então você vai lá atrás e segura ela, senão a garota vai acabar morrendo antes de a gente encontrar outro lugar.

– Vou ir.

Ela se levantou para passar para o vão na traseira do carro, quase foi também jogada para trás por conta da velocidade.

– Olha se tem alguém seguindo – a mulher disse para o velho. – Vê se tem polícia.

Ele reajustou o espelho lateral, apesar de não ter ideia de como colocar na posição original novamente. Não dava para ver pela janela da porta de trás porque eles haviam pintado ela.

– Ninguém – ele disse.

– Ninguém? – ela gritou para ficar mais alto que os berros da garota. – Então por que tá correndo?

– Tô correndo porque você mandou correr. Quer que eu pare? Eu paro!

– Não para, mas diminui.

Ele diminuiu, ficou na mesma velocidade dos outros carros que volta e meia apareciam na pista. Antes era mais provável que fossem parados por conta da velocidade do que por conta do sequestro.

Andréia tirou o saco da cabeça da garota, tinha um olhar que fez com que ela ficasse mais assustada ainda, naquele susto silencioso. Não precisaram mais gritar para se comunicar.

– Vou pegar agora – a mulher disse.

– Vai o que?

– Pegar agora.

– Eu entendi, só acho melhor não fazer.

– Passa pra mim.

– Se vai tirar, então pelo menos deixe um pouco para mim.

– Passa pra mim – repetiu.

O velho abriu o porta-luvas, pegou um saco e o deu a Andréia sem nem a olhar. A estrada havia ficado mais calma, então ele aumentou a velocidade para chegar logo num lugar abandonado. Ele não queria que a mulher acabasse secando e matando a garota.

Dentro da sacola tinha uma seringa nova, ainda dentro do plástico. Andréia a abriu e olhou para ela com uma cara de felicidade esquisita, parecia que ia cheirar a coisa. A garota estava tão assustada que não abria mais o bico, não sabia o que fazer e não sabia o que estava vendo.

– Tira o casaco – a mulher disse para a pequena.

A garota se arrastou um pouco para trás. O velho deu uma olhada rápida no que estava acontecendo.

– Olha o que você tá falando.

– Vamos lá, tira a roupa – Andréia repetiu, agora em tom mais firme.

A garota estava com os olhos fechados e segurando um choro, mas ouviu e entendeu aquele tom. Tirou o casaco. Ainda estava usando um suéter, o sul havia acabado de entrar no inverno.

A mulher estava preparando a seringa, deu uma olhada pelo vidro da frente para saber onde estavam na cidade. Não reconheceu o lugar. O que ouviu foi apenas o barulho das sirenes.

– Acelera – mandou.

– Não me diz o que fazer – o velho reclamou.

– Tira esse suéter também. Quero ver os braços – Andréia se voltou para a garota.

– Não, não, eu não quero.

– Tira ou então eu tiro e aí sim você vai chorar.

O velho acabou acelerando a van para escapar da viatura de algum lugar atrás, mas que não dava para ver pelo espelho lateral. Ele percebeu que reclamar com aquela mulher não daria certo.

A menina acabou tirando o suéter também. Era de um rosa claro e tinha desenhos natalinos em um branco silhuetado: uma rena, um floco de neve, um boneco de neve e um laço de presentes. Era a única coisa de cor viva dentro daquela van. Debaixo ela tinha uma camiseta de manga longa, mas o velho se intrometeu:

– É só puxar a manga, não precisa fazer ela tirar isso também. Vai acabar congelando.

Como o espelho do teto não servia por conta da janela pintada, ele o reajustou para poder ver o que acontecia no fundo. A mulher deu para ele aquele mesmo olhar que fizera para a garota, mas para o homem ele se parecia com emburramento, não com uma ameaça.

Ela acabou assentindo. Agarrou o braço da garota, forte o suficiente para mostrar que queria machucar, e levantou a manga até o ombro magro. As veias da menina pulsavam de medo e de sangue.

Pegou a seringa e colocou-a no braço da garota, que tentava puxar, mas a mulher era mais forte. Ela calculou como faria para puxar o sangue com a seringa sem deixar de apertar o braço.

Era idiotice, pensou, a seringa desde o início fora ideia do velho, ela tivera outra, muito melhor. Não olhou para o motorista antes de pegar a seringa e a agulha de outro jeito e usá-las para rasgar o braço da garota.

Foi o grito da garota que fez o homem olhar para trás. Teve a sensação de que deveria. Alguma coisa o disse que aquele grito não era apenas de picada de agulha.

– O que caralhos você fez, mulher?

– É mais prático – ela disse. – Quero ver isso agora.

– Tinha que ter esperado – foi tudo o que disse.

O sangue escorria pelo braço e caía em gotas no chão escuro. Era vermelho, mas não como o sangue das pessoas comuns. Aquele era mais claro, parecia brilhar. A mulher ficou olhando ele escorrer, depois voltou a si e largou a seringa.

Passou a mão no braço e levou-a a boca. Fez de novo uma, duas vezes. Seus olhos tremiam, como se dando voltas de prazer, e suas veias também começaram a pulsar.

A seringa no chão deu um pulo, mas a van não passou por pedra nenhuma. Andréia usou as próprias mãos para abrir mais o rasgo, a garota deu outro grito agudo. A mulher queria botar a mão inteira dentro do corpo da garota e pegar o sangue com a mão em concha, mas não tinha como. Fez isso em menor quantidade, mas repetidas vezes.

– Não vai matar ela, hein – o velho gritou para trás.

– Você cuida da estrada – ela gritou de volta.

O velho mudou de novo o vidro para ver o carro da polícia, mas não conseguiu. Viu apenas o reflexo das luzes e ouviu apenas o barulho. Não estava muito longe, afinal. Pisou mais forte no acelerador.

A seringa, a sacola, o casaco e o suéter da garota deram um pulo mais alto e mais longo, a van não tinha passado por nenhuma pedra de novo. A mulher estava com uma força que nunca antes sentira, acabou rasgando a camiseta da garota como se fosse papel de jornal. A menina fez um gesto automático de cobrir o peito e se virou para o lado.

– Tá maluca? Para com isso ou então te atiro pra polícia agora mesmo.

A mulher não ouviu. O rasgo no braço da garota já estava quase todo cicatrizado, então ela pegou de volta a seringa e abriu um novo e maior, dessa vez no outro. A garota se debatia com os pés, Andréia sentou em cima das perninhas sem forças.

Pegou sangue, bebeu sangue e pegou mais. Os olhos continuavam a dar voltas de prazer. Quando ela os abria, pareciam eletrificados. O braço primeiro rasgado da garota estava agora sem nenhuma marca de seringa ou cicatriz, apenas continuava sujo pelo sangue seco que Andréia não limpara ou lambera no seu frenezi.

As coisas do chão, agora junto os fiapos da camiseta rasgada, deram um novo pulo. Dessa vez não desceram mais, continuaram no ar como se nadando nele. A porta de trás da van estava fechada e com a janela pintada, mas a mulher mesmo assim conseguiu ver através dela o caro da polícia.

– Era melhor ter usado a seringa – o velho retomou a conversa.

– Eu usei a seringa – Andréia disse. A voz não era a mesma, e o homem e a garota notaram.

Ele já havia abandonado o plano. Não havia parado a van, descido e corrido porque sabia que a polícia o pegaria. Não queria mais sangue, nem mesmo sabia dizer como foi que caiu na conversa de Andréia. “E lá existe sangue mágico”, ele dissera antes. Agora sabia que existia, mas não importava, ele queria ficar longe dele.

Aqueles gritos da garota ficaram mais altos, mesclando-se à sirene. Andréia não parava de tirar sangue. O velho, vendo pelo retrovisor, não conseguiu evitar de sentir um calafrio e pensar num filme de vampiro que nem se lembrava de ter visto. Se ele desse uma acelerada agora, ela caía na porta de trás, quebrava o trinco e tombava na estrada para ser atropelada pelo carro da polícia, mas então a garota também cairia junto.

Não soube o que fazer e por isso nada fez. Ele apenas dirigiu.

Outro grito alto. Agora parecia que Andréia estava abrindo a garota com uma das garras da pata, mas a garota se curava no mesmo momento e isso enfurecia a mulher, que continuava tentando rasgar mais forte e causando outro surto de dor. As garras aumentavam a cada grito.

Saiu sangue pela boca da garota. Não era apenas o vermelho, tinha também dourado e um pouco de verde. As coisas que estiveram flutuando começaram a bater nas paredes e a ricochetear. Uma hora as roupas jogaram a mulher para trás, como se estivessem num movimento consciente de defesa da garota, mas Andréia as rasgou e voltou para cima da criança.

Chegou uma hora que nem o sangue, nem a garota aguentaram mais, foi então que saiu uma cor púrpura de dentro dela. Não junto do sangue, mas como se fosse uma luz, como a do sol, tão forte quanto que por um momento cegou Andréia e o velho. A cor ficou no comando da ação e sofreu uma espécie de explosão, mas que deixou a van intacta, apenas a fez dar um salto. Quando ela aterrissou, a garota estava morta, mas sem nenhum arranhão. Andréia ficara carbonizada, com uns pedaços do carvão com uma pedra púrpura. O motorista também estava morto, e tal qual a garota não mostrava sinais da razão, seria possível especular que ele bateu com a cabeça no volante ou então estalou o pescoço na aterrissagem. A van caiu não na estrada, mas num gramado ao lado. Atrás estava um carro da polícia que ia para um sítio cujo dono reclamou de um ladrão. Os dois policiais dentro dele viram tudo e pisaram no freio no impulso. A mulher deu com a cara no volante, o rapaz no porta-luvas. Ficaram por um segundo sem entender, então o garoto olhou para a mulher sem saber o que fazer. Ela pegou a arma, botou no coldre e saiu. Ele também saiu, mas não tinha ainda uma arma para pôr no coldre. Foram investigar a cena, era mais urgente do que um ladrão num sítio no fim da cidade. Uma pena, o garoto estava esperando por algo simples. Era sua primeira vez e já algo tão fora do comum. Meu Deus, ele pensou, que outros casos será que aquela cidade ainda guardava?


Lucas Zanella

No blog posto geralmente textos de opinião assim como também histórias curtas. Aqui você encontrará fantasia, terror e ficção científica. Talvez até mesmo algum drama ocasional.

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