A motivação do assassino

Lendo alguns comentários de um filme que julguei excelente na Netflix, me deparei com a mesma coisa a toda hora: “filme fraco, nem mesmo dá uma explicação para o porquê do assassino matar.”

Estamos em tempos conturbados, isso não tem negação. Hoje em dia é bem verdade que morte tem sempre um motivo, quase como se a vida tivesse ganhado um significado especial. A pessoa não é assassinada, ocorreu feminicídio. Não foi morte, é um ato de homofobia. Não é homicídio, é radicalismo religioso. Lembremos de uma coisa, mas esse aqui não sou eu querendo tirar categoria de coisa, mas é certo: morte, meus caros, é morte.

Em Orlando, em junho de 2016, um maluco invadiu uma boate gay e matou 49 pessoas, o evento entrou para a lista dos mais desastrosos dos Estados Unidos. Na mesma cidade, em um dia muito próximo, uma cantora foi assassinada. O autor do crime foi segurado pelo irmão da vítima, mas, numa briga, acabou cometendo suicídio. Digo que foi suicídio porque depois foi descoberto um bilhete que ele deixou no seu apartamento. Pensei em puxar esses dois exemplos porque eles em tanto se diferenciam: no principal, um deles foi de grande escala, o outro deixou apenas dois mortos.

Acima de tudo, eis o que me levou a puxar da memória essas duas notícias que li só de passagem: apenas um deles teve um motivo. O ISIS depois assumiu a autoria pelo crime, sendo assim, todos deram um motivo à tragédia: terrorismo. O segundo crime foi, sim, anunciado internacionalmente, mas não muito. Há uma discrepância em número de vítimas, claro, mas creio que mesmo se fosse 1-a-1 ele continuaria mais ou menos na surdina. A cantora morta, Christina Grimmie, era famosa, tinha seguidores que a acompanhavam e que choraram por ela, mas faltou ali uma coisa: em quem pôr a culpa. Os dois crimes tiveram seus autores, mas apenas o tiroteio em massa deu aos telespectadores uma conclusão satisfatória. “Era um ato terrorista”, podem dizer. Grimmie morreu e o matador se matou, deixando apenas um pedido de desculpas para a família. A coisa acabou aí.

Faz alguns anos que escrevo histórias, mas sei que todo mundo consegue ver que há um erro de narrativa, a trama não está “concluída.” Imagine se algum dos grandes autores de thrillers escreveriam uma história desse tipo. Não, nunca. Não vende. Não emociona. Acima de tudo, não acaba.

De volta à Netflix, foram muitos os que deram nota 1 ou 2 ao filme pelo mero motivo de que as razões do assassino não foram reveladas. Alguns ainda dão dicas: “podia dizer que tinha um problema mental.” Isso tudo, creio eu, porque eles não entendem uma das mais fundamentais do nosso mundo:

Gente morre, e gente mata.

No início do ano li Menina Má, de William March, que, em suma, conta a história de uma garota que gosta de matar pessoas. Há, na narrativa, uma espécie de razão para o seu desejo, isso é descoberto no desenrolar da trama. Sempre há um motivo. Pense em um filme que você viu, o assassino teve um motivo? Pode bem ser que não, mas então ele é apresentado como um maluco, completamente fora da casinha, tão sem parafusos que baba se não se lembrar de fechar a boca. O Coringa é o personagem em que consigo pensar que “é mau apenas por ser mau.” Mas a vontade humana de pôr uma razão atrás da malvadez é forte demais. Em A Piada Mortal uma teoria é apresentada e dá uma origem para a crueldade do amado personagem.

Também essa teoria me parece ser algo relativo, afinal, Jack, o Estripador ainda é estudado mesmo mais de cem anos após os crimes terem acontecido. Foram tão poucas vítimas, mas seu nome está encravado na história britânica e mundial. Fazendo o papel de advogado do Diabo, ou então de advogado do advogado do Diabo, é bem provável que ninguém sequer ligasse para a existência de um sujeito há um século se ele tivesse sido morto pela polícia ou posto na cadeia. Volta a inconclusão, dessa vez afetando a história de um modo diferente.

Às vezes o assassino não teve um dia ruim e não quer apenas ver o circo pegar fogo. Simplesmente acontece. Se formos ao cerne, podemos talvez descobrir que o homicida sente prazer em matar, essa é a melhor conclusão que consigo bolar. Não sou neurólogo e certamente não sou um matador, então pouco posso fazer para tentar descobrir essas coisas, para achar uma resposta satisfatória. Talvez seja essa a pegadinha, não há resposta. Talvez seja pensar nessas coisas que faz dos malucos malucos.

Eu sei que meus textos (ao menos os de opinião) não são exatamente algo incrível de onde vocês podem tirar conclusões. Conclusões são overrated. Assim sendo, deixo aqui apenas o que pensei. Não é como se pensamentos individuais disponibilizados na internet fossem extrapolados por leitores desatentos.

 

Você que vê filmes, que assiste ao noticiário, que acompanha o jornal até nas redes sociais, que cada morte que acontece já aparece na sua linha do tempo, me diga uma coisa, uma coisa rápida: tudo isso é medo de perceber que o assassino pode também ser você?


Lucas Zanella

No blog posto geralmente textos de opinião assim como também histórias curtas. Aqui você encontrará fantasia, terror e ficção científica. Talvez até mesmo algum drama ocasional.

3 Comments

  1. Concordo com você e com a Gabi A.
    No começo, fui lendo e tendo outra visão sobre o assunto, não conseguia parar de ler até terminar e ver que concordava com seu texto.
    E no final, concordei de vez, não somos só bem, nem 100% malvados, somos humanos e não criaturas e sempre erramos.

  2. foda, comecei a ler e me deu um puta frio na barriga (achei que tu ia desmerecer crimes de homofobia e etc), dps entendi o que tu queria dizer, e daí tu fecha super bem fazendo um questionamento básico de Direito Penal: sempre vemos criminosos como criaturas (não de fato pessoas, pois EU sou uma pessoa, e jamais faria o que ele fez, que horror!) 100% cruéis, com uma mente doentia ou valores morais totalmente perturbados, alguém que jamais teve de fato boas intenções; e que não podem ser reeducadas, que vão continuar a cometer crimes. Mas ao analisar o mínimo de casos reais tendo a decência de avaliar o contexto completo do crime, na verdade todos podemos um dia cometer um crime (mesmo que por legítima defesa, o que dai não é crime, mas enfim), mas é claro que são poucas pessoas que admitem isso, até por que muitas vezes não nos damos conta de que crimes não são sempre assassinatos, estupros ou desvio de milhões de reais. Então de fato, muitas vezes, “tudo isso é medo de perceber que o assassino pode também ser você”.

    • Exatamente. Ninguém é completamente mal ou completamente bom, não importa o quão pura ou impura a pessoa aparente ser.
      Na verdade, editei essa primeira parte algumas vezes justamente porque pensei que as pessoas poderiam entender que eu estava tirando o valor de gravidade do tal crime. Fico feliz que isso não aconteceu! 😀

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