A Vila dos Pecados, de Soraya Abuchaim

Procurando ebooks de terror em promoção na Amazon, encontrei um com o interessante título A Vila dos Pescadores. Era um nome que fugia do clichê o suficiente para eu ler a sinopse. Não demorei para perceber meu erro, mas a descrição ainda assim já havia me prendido. Não importaria se eu acabasse não gostando, afinal, ele estava numa promoção especial, custando zero reais. Não me faria mal ao menos ler o início, ver qual era a qualidade literária. Foi assim que a coisa começou.

Informações

Título: A Vila dos Pecados

Autora: Soraya Abuchaim

Editora: Coerência / 2017

Páginas: 451

Sinopse: Final do século XIX. Enquanto o mundo passa por transformações importantes, existe uma vila inóspita, que vive à margem da civilização e que tem as suas próprias e estranhas leis. Lendas escuras a rondam e histórias macabras sobre Ponta Poente povoam o imaginário popular.

Quando o padre Alfonso Anes, um exemplo vivo de amor e resignação, chega à vila para substituir o seu antecessor, depara-se com segredos que o farão duvidar da própria sanidade, e uma onda de mortes trará o caos para aquele lugar ermo.

Quem estará a salvo? Serão estes segredos o fim de quem os esconde? O que esse universo tenebroso revelará para o mundo? Um suspense sinistro, que envolverá completamente o leitor e o levará a compartilhar dos segredos da Vila dos Pecados.

Comecei a leitura pelo Kindle. Foi rápida e prazerosa. Não havia gasto nada com o livro digital, mas estava gostando tanto dele que lê-lo gratuitamente me pareceu errado. Procurei a autora com a premissa de transferir o valor total do livro, mas acabei encontrando uma versão física em oferta no seu site. Comprei-a, é claro, e enquanto o Correios fazia seu trabalho, continuei lendo pelo Kindle. Não li tão rápido o livro impresso, mas o prazer ainda foi o mesmo.

O primeiro capítulo do livro, em particular, merece uma atenção. Enquanto muitos escritores facilmente o poriam como prólogo, Abuchaim não fez isso. Também é no final desse capítulo que observamos uma das maravilhas da escrita de Soraya: o gancho, ou algo muito semelhante a ele. É por conta deles que a leitura se torna fluida. Ao meu ver, não são todos que possuem, mas o gancho surge quando menos esperamos, atuando exatamente do modo que deve: ficamos fisgado pela escrita magistral e somos obrigados a ler a próxima parte.

Há também algo semelhante a um foreshadowing. Se há um nome específico, desconheço. São as frases que aparecem no meio da leitura, como “Ele não conhecia nem um terço do que se passava ali” (capítulo 7). Mostra que há mais por vir e renova a vontade de continuar lendo. Como já diz a anotação que fiz no Kindle, é quase tão bom quanto um gancho. Posso afirmar que sempre tive um arrepio quando lia essas passagens.

Críticas da trama

A igreja ficou em silêncio sepulcral; todos aguardavam aquele momento em que o homem lindo que se projetava à sua frente iria falar. Um sentimento homogêneo tomava conta dali: que ele não nos decepcione!

Um estranho mote que perpassa o livro é o da beleza dos protagonistas masculinos. Há referências a uma beleza feminina, mas aparecem quando ela de fato tem relevância. Soou-me estranha a menção à beleza de padre Alfonso enquanto ele está prestes a começar uma missa. O mesmo acontece com outro protagonista, o garoto Gustavo, que possui uma beleza admirada por todos. Há momentos em que essa referência pode ser intencionalmente desconcertante (a comparação de dois outros garotos a ele, no cap. 12), mas em outros ela soa meramente ingênua, como se a autora não tivesse percebido que isso poderia soar estranho. Certamente meu primeiro pensamento ao ler foi “Lolita”, embora percebo que o erro pode ter sido meu: imaginei o garoto mais jovem do que ele de fato é. Outra possibilidade é estar desacostumado a ler a palavra “lindo” em livros, sendo ela quase sempre substituída por “belo” ou uma sinonímia.

Com a chegada de Alfonso, Gustavo percebe que o padre anterior não era tão bom quanto lhe parecera. O que acontece, porém, é que ele agora já se devota ao novo com a mesma fé cega. Algo que já me parecia estranho quando imaginava ser um garoto de 12 anos, mas um rapaz de 15, a idade real, estaria menos propenso a cometer o mesmo erro duas vezes, haveria desconfiança. Não há aqui, como primeiro pensei que houvesse, a desculpa de uma ingenuidade juvenil.

Gustavo tem certeza de que, agora, está no caminho certo. Só então ele percebeu que nunca havia tido essa fidúcia plena com Bento; a sementinha da desconfiança vivera plantada em seu coração, de uma forma estranha e misteriosa.

As breves experiências (digamos) “sobrenaturais” de Alfonso me pareceram esquisitas. Deus lhe fala de modo direto, com frases completas, e não com “emoções”, como acredito que seria a representação mais comum de um deus não físico. Não sendo uma personagem do texto, ele aparece nessas partes de um modo misterioso, apenas por voz, apenas para Alfonso. Perguntei-me se a autora inseriria algo relacionado a uma possível esquizofrenia, mas não foi o que notei no decorrer da trama.

Soraya Abuchaim é uma fã de Stephen King, e embora as partes boas do mestre tenham ecoado (as personagens, a escrita), o mesmo aconteceu com a mais criticada: os finais. Embora de modo algum tire o mérito do resto da história, o final e a revelação me pareceram pobres. Nas linhas finais da trama, anotei que esperava se tratar de um red herring, pois do oposto não faria sentido. Mesmo que houvesse sementes da verdade no restante da história, não seria de todo crível.

As partes intituladas “Interlúdios de um Assassino” são, ao meu ver, as mais fracas do livro, mesmo levando em consideração seu final desagradável. A primeira pessoa não combina com o restante da narrativa (algo proposital, certamente), mas também percebo que o texto não flui do mesmo modo. Antes dessas partes, o assassino agia como um ser acima dos outros, nunca visto diretamente, era uma sombra que o leitor não conhecia. Ao termos acesso aos seus pensamentos, perdemos um pouco essa onipotência. Creio que seja o mesmo efeito que as falas de Deus me causaram.

Spoilers

Eu tinha a intenção de reler as mortes, para ver se havia uma frase que não fizesse sentido e que agora, com a revelação de Gustavo como assassino, ficaria clara. Já diz o ditado: o bom plot twist é quando lemos novamente e percebemos que não poderia ser de outra maneira. Infelizmente, não é isso o que acontece.

Reli a parte de Teresa (admito, foi a única morte que senti), e nela a mulher chama Gustavo de “homem”, algo que ele certamente não é. Um “rapaz” já teria sido melhor e manteria a ambiguidade, mas mesmo assim não funciona por conta da reação sem surpresa da prostituta. Ela não vive dentro da lei, mas em nenhum momento antes a narrativa nos deu a ideia de que ela estaria disposta a fazer sexo com um garoto de 15 anos, especialmente um notoriamente beato. Quando ela imagina que tudo faz parte de um “plano sensual”, faria sentido se o assassino fosse, de fato, um homem.

Uma solução para o problema seria Teresa recusar-se a fazer o que acreditava estar ali para fazer, já que isso não necessariamente significaria ser por conta da idade do cliente. Numa nova leitura, essas pistas tornar-se-iam claras para o leitor que já esta a par da reviravolta. O mesmo descuido acontece na morte de Mirtes: ela tem medo que algo pode lhe acontecer, mas trata-se de um garoto que nunca causara problemas. Um espanto poderia acontecer, sim, e mesmo o medo, mas não antes de haver uma razão para esse medo aparecer. Do contrário, Mirtes apenas apavora-se ao ver um garoto falar com uma voz malvada.

Em se tratando de mortes, Soraya Abuchaim sabe escrevê-las. A morte de Carlos e de Dr. Pina foram as em que eu mais notei o gênio da escrita. A última frase do primeiro capítulo, a frase mortal para o padre Bento, foi um dos ganchos que mais apreciei, especialmente por tratar-se de algo que não esperava. Eu gostava da personagem, mas não pude sentir raiva ao ler algo tão bem escrito.

Agora, em se tratando de narrativa, a morte de Dr. Pina acontece subitamente. Ele já indica uma depressão, mas a arma que usa parece ter sido adicionada de última hora – coisa comum para jardineiros, mas é algo a se corrigir na edição. A cena com Mirtes e o rato seriam muito melhores se colocadas anteriormente na história. Desse modo, o veneno aparece como uma espingarda de Tcheckov.

Reitero que adorei o livro, mas a reviravolta me pareceu seu aspecto mais pobre, como um plot twist adicionado sem pensar, para pegar o leitor de surpresa – de fato é uma surpresa, porque não faz sentido.

Críticas da edição

Lendo pelo Kindle, erros de digitação aqui e ali me saltaram aos olhos. Não os observei na versão impressa, mas infelizmente não os anotei para poder comparar uma com a outra. De todo modo, uma última revisão e edição com certeza deixariam o romance num estado impecável.

Trata-se de um pormenor, mas após uma segunda olhada para a capa, percebi que uma parte da letra “E” fica atrás da imagem da cidade, assim podendo-se ler “PFCADOS”.

Por último, a versão impressa possui um gráfico no começo de cada capítulo. O que acontece é que, à luz mais fraca, isso acaba por atrapalhar a leitura dessa página por escurecê-la. Creio que seria mais apropriado um gráfico no entorno do texto, e não junto a ele, mesmo que em baixa opacidade.

Conclusão

Há muitas críticas nessa postagem, algo perigoso a se fazer a um romance nacional quando se pretende ser escritor. No entanto, elas não são feitas por má-fé, justamente pelo contrário.

Por fim, finalizo essa resenha com o que é, para mim, o elogio máximo:

Pela primeira vez em um longo tempo, o que eu via quando lia A Vila dos Pecados não eram palavras numa página, mas pessoas vivas em um mundo igualmente vivo. Abrir o livro era ler “só mais um capítulo”, era entrar num filme. É uma sensação que me ocorre pouco nos dias de hoje, mas ela me tomou como se eu não demonstrasse impedimento. E, de fato, não demonstrei. Soraya tem um jeito de lidar com personagens que nunca vi em um livro brasileiro e raramente noto em livros estrangeiros. Suas características, pensamentos, falas, tudo colabora para que pareçam ter vida própria.

Já encontrei outros excelentes autores nacionais em que valem a pena ficar de olho, mas nenhum deles expressa essa necessidade tão bem quanto Soraya. Na verdade, um novo romance da autora chegará em 2018, e mesmo sem saber sua sinopse ou mesmo seu gênero, já sei que comprarei, já fui fisgado pela autora, já conheço sua maestria.

Acima de tudo, não podemos piscar os olhos, pois Soraya Abuchaim pode muito bem lançar o próximo best-seller, e certamente não queremos perder algo tão significante para a literatura nacional contemporânea.

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Lucas Zanella

No blog posto geralmente textos de opinião assim como também histórias curtas. Aqui você encontrará fantasia, terror e ficção científica. Talvez até mesmo algum drama ocasional.

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