Anjo de Ferro

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Anjo de Ferro, PDF

 

“Era um dia ensolarado e com poucas nuvens no céu”, é como um maldito escritor começaria, mas não é esse tipo de história. Além do mais, não era um dia ensolarado, e havia muitas nuvens no céu. Um céu meio nublado e meio vazio, impossível de descrever na primeira olhada. Ao encarar por algum tempo, você chegava a ter certeza de que não havia mais sol. Ou, se havia, ele mudara. Nuvens que pareciam algodões banhados de sangue, era isso o que nós víamos.

Não perguntei a mais ninguém se eles também viam aquele espetáculo que mais parecia um rio ao lado de um matadouro, e realmente não ousaria fazê-lo. Se alguém me dissesse que o céu estava azul como as praias do Rio, eu teria surtado. Quando olhei para o céu pela última vez, ainda estava dentro do carro. Olhei-o pelo retrovisor por um longo tempo, como se o desafiasse a manter aquela cor por mais tempo do que realmente conseguia. No fim, ele continuou tão vermelho como o sangue, e foi eu quem acabou desistindo.

A porta do carro abriu com um clique e se fechou com outro. A janela ainda estava um pouco abaixada, mas não fiz questão de voltar a abrir o carro para fechá-la.

Ao ver o distintivo balançando no meu peito, uma mulher que carregava sacolas cheias de compras me cumprimentou. A princípio nem ouvi sua voz, encarava avidamente a entrada do lugar.

– Madame – cumprimentei com um aceno da cabeça ao voltar para a realidade. Ela saiu satisfeita, as compras balançando na mão.

Não se podia dizer que a clínica era chamativa, afinal, parecia quase se morfar e sumir dentre a padaria do lado direito e a loja de roupas femininas do esquerdo. Mesmo que quase invisível, era notada, principalmente pela escultura bem detalhada de um anjo ao lado da porta dupla. Pigarreei e ajustei a corrente que segurava o distintivo no pescoço. Desde que saíra da delegacia ela vinha me incomodando na nuca.

A porta deslizou graciosamente pelo chão de linóleo quando a empurrei, e não houve som algum que avisasse da minha chegada, mas mesmo assim todos que esperavam para ser atendidos se viraram para olhar o novo visitante. A atendente não moveu um músculo sequer, tinha os olhos fixos no computador gordo em que registrava uma coisa qualquer. Ainda assim, ela, de algum modo, me viu, reconheceu e disse:

– O doutor Mathias disse que você poderia aparecer. – Sua voz era de indiferença. Dava a impressão de que a planilha a qual olhava era muitíssimo interessante. Quando me aproximei da bancada, ela minimizou a janela e se virou para mim. O som das rodinhas da cadeira foi a única coisa que ouvi além das ocasionais tosses, passos e batidas do meu próprio coração.

– Muito bem – eu disse. – Onde ele está?

– Com uma paciente, é claro. Eu o guiarei, oficial. Espero que não se incomode.

– De maneira alguma, senhorita….

– DeWitt. – Suspirou e se inclinou na cadeira, pegando impulso para levantar. – Mas pode me chamar de Bárbara.

– Bárbara – concordei. – Não estarei interrompendo seu trabalho?

Ela não respondeu, apenas saiu do seu cercado seguro e apareceu logo ao meu lado, uma prancheta na mão. Minha memória pode não ser tão boa quando costumava ser na adolescência, quando ela ainda era bastante “fotográfica”, mas lembro-me de algumas coisas poucas que li. Era o roteiro, todas as salas para as quais ela me levaria. Também vi, apenas de breve, as salas para as quais ela não deveria me levar. Tomei nota dos números.

– Me acompanhe, por favor.

Saímos da sala de espera e entramos na clínica em si. Apesar de sua entrada ser um tanto quanto estreita, ela se expandia quando ia para trás, invadindo os terrenos da padaria e da loja de roupas. Não era apenas maior que a minha casa. Por um momento, todo aquele branco me confundiu e poderia jurar que o lugar era maior do que toda a maldita cidade.

– O doutor Mathias a disse o porquê de eu estar aqui? – perguntei, as mãos cruzadas nas costas com um certo medo de encostar naquelas paredes.

– Não se deu ao trabalho – disse, novamente com indiferença.

– Recebemos algumas estranhas reclamações, senhorita Bárbara. Reclamações de algumas das mulheres que vocês atendem aqui.

– Hmm-hmm.

Desisti de conversar. Não tiraria nenhuma informação confidencial daquela ali, possivelmente porque ela não dava a mínima. Para ela, poderiam estar fazendo dissecações em humanos vivos e… bem, contanto que o dinheiro chegasse no dia e quantidade corretos, quem se importa?

– Aqui é onde realizamos a acupuntura – gesticulou para uma sala. – Pode olhar pelo vidro, se quiser, mas o doutor está com uma paciente, então não pode entrar.

Foi o que fiz. Precisei me encolher apenas um pouco para ver direito. Era uma sala não muito grande, uma cama ou maca no centro com uma mulher deitada de bruços, uma toalha acima da parte íntima. O médico parecia concentrado, espetando aquelas agulhas na pele da paciente. Estremeci um pouco apenas por ver que elas realmente pareciam afiadas.

Não falei nada, mas tive certeza de que não era assim que acupuntura era feito. Certamente a paciente não deveria sangrar. Apenas um pouco, uma linha fina e vermelha e apenas em alguns lugares onde as agulhas foram postas, mas sangue mesmo assim.

– Podemos entrar nessa sala – continuou Bárbara, tirando-me do estado de alerta. – Aqui acontece a meditação.

Ela abriu a porta e se pôs de lado para dar espaço. Apenas enfiei a cabeça lá dentro e vi os colchonetes no chão, alinhados com perfeição, e um único na frente de todos eles, o lugar para o dito médico. Não fiz questão de vasculhar mais.

– Aquela ali? – perguntei, apontando para a que ficava numa das pontas.

– Não tem ninguém nela, mas não podemos entrar. A madame Lice não gosta de energias diferentes na sua sala. Pode olhar pelo vidro, mas não encoste nele.

Suprimi um sorriso para manter meu rosto o mais neutro possível. Essa sala era mais colorida, embora ainda com paredes brancas. A mesa de pernas curtas, de madeira envernizada, era o que mais chamava a atenção porque refletia um pouco a luz fluorescente. De dois lados, almofadas grandes e vermelhas com detalhes amarelos. Os desenhos nelas não consegui identificar pois eram pequenos demais.

Em cima da mesinha, as cartas ciganas, sempre bem coloridas e demonstrando poder. Elas estavam espalhadas ordenadamente, viradas para baixo, como seria uma mesa ainda inutilizada num cassino. Ambos têm a ver com a sorte, pensei sem reparar. Não encostei no vidro.

– Muito bem.

– Não podemos entrar em nenhuma das salas do outro lado, é onde acontecem os tratamentos para as pacientes com depressão, ansiedade e pânico. Uma delas está de repouso aqui, não deve entrar em contato com ninguém por uma semana. Se o ver, pode se assustar e o tratamento irá por água abaixo.

– Como ela come? E bebe?

– Levamos comida quando ela dorme, e há um banheiro no quarto, a água da pia é limpa para beber.

Falei nada, apenas fiz uma anotação mental.

Um médico chegou, reconheci como sendo o doutor Mathias. Ele entrou de supetão e hesitou em falar quando me viu, mas logo então disse:

– Olá, oficial. Bárbara, preciso de ajuda com uma paciente.

A moça olhou para o rapaz poucos anos mais velho que ela e então para mim, seu rosto tinha um glimpse de preocupação. Fora isso, era tão indiferente quanto no momento em que botei os pés dentro da clínica.

– Eu a esperarei aqui, não tem problema – disse a ela com um sorriso de concordância, meu coração correndo a mil.

– Voltarei em breve – ela prometeu.

Os dois foram para a sala de espera e então entraram na única outra sala que havia lá. Fiquei parado, observando aquela porta de madeira meio bege por alguns segundos, certo de que a garota voltaria quase no mesmo momento em que entrou, mas nada aconteceu por algum tempo.

Talvez fosse um minuto ou quase isso. Foi o tempo que levei para decidir que ela demoraria o suficiente para que eu vasculhasse o que tivesse de vasculhar. Resgatei da mente os números das salas em que Bárbara DeWitt forainstruída a não me levar e corri até a primeira delas. Não eu mesmo, meu cérebro correu. O meu corpo caminhou de forma calma e normal até ela.

A janela de vidro dela fora coberta por uma cortina branca. A porta, apesar das minhas dúvidas, estava aberta. Deixei-a aberta para não fazer barulho ao sair, embora todo o movimento tivesse feito o mínimo dos sons.

Era uma sala cirúrgica. Não foi preciso de muito tempo para notar isso, é claro. Havia uma maca, mesas com não apenas equipamentos mas também medicamentos, e um lixo visivelmente cheio num dos cantos. Fui direto até ele e pisei no pedal que fazia a tampa abrir. Sem muita surpresa, estava completamente cheio de lenços sangrentos, alguns dos quais o próprio branco tinha saído por completo, restando apenas a cor e o cheiro do líquido interno.

Retirei meu pé e a tampa fechou, novamente sem barulho. A maca do centro foi o que mais chamou minha atenção, talvez por conta do seu couro ser de um azul calmo em vez do branco da sala. Azul ou não azul, havia vermelho nele também, assim como no chão. De restante, impecável.

Na segunda sala que entrei, não era bem esse o caso. O lixo estava vazio, sim, mas todo o resto não. O sangue ainda escorria pela maca e caía no chão, como se fosse o resultado de uma cirurgia recente. Retirei do bolso da calça uma máquina fotográfica e capturei uma imagem. Prontamente, voltei a colocá-la no bolso.

Antes de sair dela, aproximei-me da mesa com os instrumentos cirúrgicos. Muitos deles estavam inutilizados e limpos, mas alguns banhavam sangue, com uma poça pequena abaixo deles. Mais uma foto, e então saí.

Aguardei um segundo para checar a sala de espera de longe. Ainda sem movimento além das pacientes que aguardavam seu atendimento. Havia três grávidas sentadas nas cadeiras espumadas. Tive a vontade de gritar para que elas saíssem dali o mais rápido possível.

Vocês não ouviram os rumores?, gritei na minha própria cabeça.

A última sala da lista que havia na prancheta era uma sala administrativa. Ficava bem no centro da clínica, a porta desta estava trancada. Inspecionei a fechadura por alguns segundos e reconheci o modelo, retirei do bolso um clipe e o desarmei. Em menos de um minuto a porta se abriu com um clique.

Uma escrivaninha no fundo, sem nenhum computador. Duas cadeiras na frente desta e uma atrás, para o médico responsável pelo local. Acreditava que fosse Mathias, era o mais presente em tudo o que havia sobre o lugar, mas não poderia dizer com certeza.

Desta vez, fechei a porta.

Fui direto para a escrivaninha vasculhar os papéis que havia sobre ela. A maioria era apenas fichas simples de pacientes aleatórios, possivelmente os que ainda estavam em tratamento. Numa cabine de metal encontrei mais fichas de pacientes, estes já tidos como “curados”, era o que dizia a etiqueta.

A única etiqueta que não tinha uma descrição detalhada sobre o conteúdo das pastas era uma que havia dentro da última gaveta, a mais próxima do chão. Ajoelhei-me para observar melhor. Havia no papelzinho branco que indicava os arquivos “DC103 – AL505”. Retirei essa pasta e olhei por cima do ombro, esperando ver o trinco da porta se mover para cima e para baixo, mas ele estava tão quieto quanto antes. Voltei a me concentrar no arquivo.

Ao todo, havia o nome de trinta pacientes. Na primeira olhada, nada daquilo fez muito sentido, mas na segunda alguns dos nomes pareceram saltar para a minha cara, querendo chamar atenção. Reconheci Ellen Pereira, Raquel Firráh, Ivete da Cunha e Eduarda Cackohff. Levei um momento para lembrar onde vira aqueles nomes, até que os vejo novamente na ficha de denúncias. Eram quatro das mais de dez mulheres que disseram terem perdido os bebês pouco tempo após receberem tratamento na Anjo de Ferro.

A garota Firráh foi a que mais me chamou atenção, o nome que mais saltou, como se quisesse me dar um tapa, o mais forte que já dera. E com razão. Dois meses após a denúncia, o nome de Raquel apareceu no obituário do jornal, que não incluiu uma cópia da sua nota de suicídio. Suicídio esse que eu mesmo declarei como tal. A mensagem reforçava a denúncia. “Foi demais para mim”, era a frase que mais aparecia na minha cabeça após ter lido o bilhete.

“Suicídio”, eu disse, concluindo o procedimento padrão de investigação de mortes. Para mim, parecia mais um assassinato. Um que eu mesmo havia cometido. Embora… era difícil dizer se teria acontecido a mesma coisa se tivéssemos lidado com a denúncia mais cedo.

A porta fechou com um estalo atrás de mim. Deixei a ficha cair no chão.

– O que é – doutor Mathias começou, escorado na porta – uma vida não nascida em detrimento de outra, já em plena consciência?

– Do que está falando?

– Você sabe do que estou falando, oficial. Veja a ficha novamente. Vamos, veja. Muito bem. – Pôs as mãos dentro dos bolsos do jaleco branco. – Experimentos são arriscados.

– Que tipo de experimento vocês estão fazendo aqui, meu Deus?

Ele desenhou cada uma das palavras:

– Nós… salvamos… vidas. Pode ser que o senhor não entenda como a ciência funciona, oficial, mas eu te garanto que é assim mesmo. Experimentos.

Ele se aproximou estendendo a mão. Pensei que fosse tentar me agarrar e me tirar dali à força, mas tudo o que fez foi pegar a ficha caída no chão. Afastei-me dele sem nem mesmo perceber.

– Veja. – Mostrou a folha que eu estava olhando. – Elas foram os erros. A exceção à regra, entende. Todas as outras, vivas e bem, podem ter filhos, podem amamentar, podem fazer tudo, mas continuam no tratamento.

– A exceção à regra?

– Ainda estamos aperfeiçoando o método, oficial. Estamos aqui – juntou o indicador e o polegar – para descobrir a cura.

– Cura? Para o que?

– Tudo – ele falou num sussurro alto, misturado com um suspiro. Havia um brilho ardente nos seus olhos. – A cura para tudo. Em um ou dois anos vamos acabar com o câncer, a depressão já pode ser curada em apenas um ano de tratamento, a ansiedade e o pânico também. Tudo o que você quiser pensar, oficial, nós conseguimos fazer.

Pode ser que eu não tenha feito faculdade na área de biológicas, pode até ser que eu tenha tido mais dificuldade com a matéria no ensino médio do que todos os outros da turma, mas de uma coisa eu tinha certeza:

– Isso é impossível.

– Não, não é. Podemos fazer tudo, ou pelo menos poderemos daqui a alguns poucos anos. Cura para a homossexualidade? Nós temos. Cura para a heterossexualidade? Nós temos também. Hipocondríaco? Não mais! Chega de ter medo de alturas, de aranhas, de palhaços, da morte!

– Meu Deus! – eu disse. Mathias deve ter visto na minha frase um quê de impressionismo, mas nela não havia nada além de asco. Aquilo era demais, era como dar o poder da criação de mundos ao homem. É passar do limite.

– Mil pacientes entram e saem por aquela porta todos os dias. E então se quatro fetos morreram? Estávamos tentando efetuar a cura da síndrome de Down, mas é mais difícil com bebês. Não é impossível, eu digo isso. Também estamos aqui de curar a microcefalia. Dois anos, oficial, e sem natimortos! Não mais!

“Esse é o nosso maior problema, porque o nosso tratamento ainda não tem cura direta para eles. Os pacientes precisam estar vivos, em pleno funcionamento.”

– Me diga, doutor Mathias, quão antiético é esse seu tratamento para você ainda não o ter publicado numa revista científica?

– Antiético? – ele resmungou. – Me diga, oficial, quão antiético é você sair da clínica cego em abril e voltar a enxergar em setembro? Isso não é antiético, é divino!

– Me explique – eu disse, a voz tão dura e firme quanto a mesa na qual me apoiava para não perder o equilíbrio.

Pude ver o pomo de adão dele subir e descer enquanto ele engolia saliva. Mas, no fim, ele disse:

– Venha comigo, então.

Toquei o coldre preso na cintura para ter certeza de que ainda tinha a minha arma. De algum modo, quem sabe, ela poderia ter sumido, evaporado. O ar na clínica estava pesado.

Quando saímos daquela sala, vi que a porta de correr que dava para a sala de esperas fora fechada, embora ainda uma pequena festa estivesse aberta, como se para me dar a certeza de que não estava sendo trancado ali. Bom, foi essa a certeza que tive.

– São termos complicados, sabe, oficial, ainda não precisamos explicar o nosso método pra ninguém que não entendesse – ele sorriu como desculpas –, mas acho que consigo. O senhor… O senhor sabe o que é o efeito placebo?

– Quando um remédio falso cura alguém, não?

– Precisamente, oficial, precisamente. A mente acredita que o remédio é verdadeiro, e não é o remédio que cura, mas sim a mente. Pense no nosso método como uma ampliação desse conceito, mas com uma potência multiplicada por mil, cem mil, um milhão, talvez até mais.

Ele abriu a porta de uma sala muito pequena onde havia um vidro do outro lado., certamente onde outros médicos ficavam para acompanhar o experimento. Uma cadeira como de dentista, reclinada, encarando um monitor do tamanho de um livro de bolso.

– Na primeira sessão, ele entra cego e sai cego, mas depois de algum tempo, vai percebendo que consegue ver um pouco, como uma pessoa com miopia extremamente avançada. Outra coisa que curamos. Os remédios placebo comuns agem, quando funcionam, apenas na mente de um modo pequeno, não exploram seu potencial completo. O cérebro humano é completo, oficial, complexo e lindo. E também poderoso.

Uma coisa capturou minha visão por completo, e fui atraído até a parede dos fundos, onde havia algumas fotografias grudadas com fita adesiva em uma ordem específica.

– Não – eu disse.

– Ah, sim – doutor Mathias confirmou.

– Isso é impossível, nada pode ser tão… poderoso.

– Sem… mais… próteses.

A primeira imagem da sequência, um homem com um cotoco como braço esquerdo. A última imagem, um homem com um braço esquerdo completamente funcional, embora muito mais pálido que o direito.

– Antiético. – Desta vez ele caçoou. – Imagine, oficial, um placebo tão poderoso que consegue mudar você por completo. Tudo, absolutamente tudo. Regenerar órgãos, tecidos, mudar a cor dos olhos, do cabelo. Já vi um preto virar branco, oficial, e um oriental de olhos puxados virar o mais perfeito homem negro que você já viu.

– Isso é… Isso é… – comecei, embora mesmo antes disso já soubesse que não saberia como terminar.

– Sem mais dentistas. Dentes brancos em uma semana de tratamento extensivo. Cáries nunca mais! Dentes podres nunca mais! Um único remédio, capaz de tudo.

Observando ainda as imagens, uma lágrima desceu pelo meu rosto, como se estivesse encarando um sol forte. Como se estivesse observando a face de Deus, e ela me assustasse, aterrorizasse.

– Isso é poder demais – completei a frase, tendo certeza de que era a correta.

O doutor não respondeu de primeira. Caminhou um pouco pela sala, ajustou alguma coisa na televisão minúscula. Cruzou as mãos nas costas e me olhou no olho quando disse:

– Quando você ganha dez vezes seguidas no pôquer, não diz que é demais. Por que isso seria diferente?

Pensei por muito tempo para responder, e no fim achei nada. Absolutamente nada. Aquele experimento, tratamento ou o que quer que fosse… ele me dava arrepios, e no fundo da minha alma eu sabia o quão errado ele era, mas não conseguiria dizer o porquê nem mesmo sob tortura. Apenas porque eu mesmo não sabia.

Uma vez vi minha sobrinha, ainda bebê, cair do sofá em que estava sentada. Ela caiu e bateu a cabeça no carpete da sala de estar. A cabecinha quicou e voltou para o lugar de antes, a garotinha com o olhar focado no além, espantada mas sem saber o que havia acontecido. Apenas quando minha irmã foi correndo para ela, preocupada, foi que a menina chorou.

O que eu estava sentindo naquele momento era a mesma coisa, provavelmente. Não sabia dizer o quê, o porquê nem nada mais, mas sabia que alguma coisa havia acontecido, e alguma coisa ruim. Mas ninguém correu até mim para que eu pudesse chorar.

Assim, tudo o que fiz foi ficar parado, observando as fotos do experimento. Depois ajeitei meu cabelo e saí da sala, fui para a sala de espera e abri a porta para o céu azul. Entrei no carro e dirigi até encontrar a árvore mais grossa da cidade. Pisei no acelerador e nem mesmo pisquei enquanto os carros por perto buzinavam ou suas rodas deslizavam com o frio brusco no asfalto.

Até me lembro da última coisa que pensei antes da tela preta:

Consegue curar isso aqui, doutor?


Lucas Zanella

No blog posto geralmente textos de opinião assim como também histórias curtas. Aqui você encontrará fantasia, terror e ficção científica. Talvez até mesmo algum drama ocasional.

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