Arvallo

O nome do lugar era Caverna da Transformação, pois era para isso que servia. Ela ficava longe da estrada, longe da cidade mais próxima e no meio de uma pequena floresta. O que os dava segurança não era a floresta, mas sim o lugar onde a caverna ficava. Todo mês eles sentiam na pele o perigo do local escolhido, que era meio socado num rochedo alto.

Eles chegavam com arranhões das árvores altas ou então com a pele raspada por alguma pedra na qual deslizaram. Havia quatro deles. Todos estavam ali exceto Dioní.

A lua já estava prestes a chegar no momento-chave quando um corpo pareceu se jogar para dentro do buraco. Como todos já sentiam os sinais da transformação, foram rápidos no reflexo e o agarraram. Eles não saberiam até o dia seguinte, quando poderiam investigar, mas o rapaz sofrera um acidente com a sua moto, caíra na estrada e tanto o veículo quanto ele foram lançados para a floresta. Foi por essa razão que ninguém o descobriu e ele ficou inconsciente por duas horas.

Quando acordou, Dioní não pôde fazer nada além de continuar a andar, ainda mais rápido agora que havia perdido tempo e estava na base da floresta. Ele sabia que não podia se transformar em lobo ali porque o seu corpo canino ignoraria os machucados e a dor. Havia uma árvore grande e com galhos o suficiente para que ele subisse, mas era longe demais da caverna para que fosse fácil chegar até ela. Ele precisou se jogar e, como já estava no limite da vida, o impacto com a rocha do solo interno fez com que morresse.

Demorou um tempo até que todos entendessem o que havia acontecido. Olhavam para o corpo morto, mas pareciam não compreendê-lo. Isso em parte era por conta da transformação, que limitava o pensamento lógico. Ignor agarrou Dioní e o levou para um canto, onde escorou-se na parede e abraçou o cadáver. Ele repetia “não” e às vezes dava um beijo na bochecha sangrenta talvez na esperança de que, como num conto de fadas, o namorado voltaria a viver. Aquilo não era, claro, nenhum conto de fadas.

Valenke, que muitas vezes se considerava o líder da alcateia, não tinha certeza do que fazer. Nunca antes vira o que acontecia com o corpo de um lobisomem morto antes da lua cheia, então tinha a vontade de mantê-lo apenas para observá-lo por razões científicas. Nada disso importava, pensou por um momento, pois Ignor certamente se recusaria a soltar o namorado. Valenke também não queria jogar o corpo para a base da floresta e danificá-lo ainda mais. Certo, era um corpo morto, mas no raiar do dia ele teria de ser apresentado à família, velado e então enterrado.

Arvallo não contribuiu com nada, apenas arrastou-se para o fundo da caverna e esperou que a transformação tivesse efeito. Não queria pensar no que acontecera.

Ignor foi obrigado a deixar de agarrar Dioní na medida em que suas mãos viraram patas. O choro e choramingo primeiro se transformaram em algo mais animalesco, então sumiram. A primeira coisa que Valenke tentou fazer após se transformar foi pular para fora da caverna, apenas para ver o abismo logo abaixo dela. Eles estavam presos ali, numa jaula sem barras, como devia ser.

Arvallo transformou-se no fundo da caverna, longe da vista dos dois. Não tentou pular para fora. O corpo de Dioní não se transformara, ele continuava humano. Ignor após alguns segundos passou a cheirá-lo e então empurrá-lo com o nariz, como se quisesse voltar a levá-lo para uma parede e apenas ficar ao lado dele até que o dia voltasse a raiar e pelo menos aquele pesadelo houvesse acabado.

O corpo, porém, estava coberto de sangue, então atraiu a atenção de Valenke após sua tentativa de fuga. Ele lambeu uma ferida na perna de Dioní. Ignor não interveio, na verdade, também começou a lamber o sangue.

Foi apenas quando Valenke mostrou os dentes e fez menção de morder que Ignor usou sua força para jogá-lo não muito para longe. Valenke tomou aquilo como um ato de agressão e rosnou. Ignor rosnou de volta, já sabendo que o plano do outro era comer o corpo.

Valenke rosnou mais uma vez, então latiu enquanto andava até Ignor, numa tentativa de fazê-lo se acovardar. A técnica funcionou até um ponto. Ignor recuou o suficiente para Valenke abocanhar o corpo de Dioní e puxá-lo para o seu lado. Isso enfureceu Ignor, que avançou contra Valenke e então fez a mesma coisa, cerrou seus dentes no corpo do namorado e puxou-o de volta.

Eles avançaram um contra o outro numa briga de lobos. Nenhum dos dois havia percebido o estrago que fizeram no cadáver. O sangue de Dioní corria pelo chão, mas junto dele se misturava o sangue de ambos os lobos que brigavam. Valenke era maior e mais forte em forma humana, então seu lobo era o mesmo. Ignor, sempre recessivo, viu-se atiçado apenas por conta de se tratar do seu namorado. Embora houvesse ganhado de início por conta da surpresa de Valenke com aquela reação, logo o líder voltou a ganhar a luta. Eles não deixaram de lutar.

Arvallo, que até então estivera quieto, viu-se também atraído pelo corpo morto. O cheiro chegava às suas narinas, e mesmo a visão do sangue escorrendo pelos buracos dos dentes e caindo para o chão da caverna era atrativo. Ele aproveitou a distração dos dois e se aproximou. Não fez nada até entender que os dois não o haviam percebido. Levemente cerrou seus dentes no braço de Dioní e o puxou para o lugar onde estivera.

Tentou não fazer barulho enquanto mordia o corpo, e os sons realmente foram mínimos. A caverna estava tão lotada com os rosnados e grunhidos que não era possível ouvir mais nada. Ele estava comendo o intestino de Dioní.

Ignor e Valenke apenas pararam de lutar mais de um minuto depois, os dois percebendo a inutilidade da briga e sabendo, embora apenas parcialmente, que as dores e feridas chegariam com força total quando voltassem às suas formas humanas. Sendo assim, Ignor reconheceu sua fraqueza perante Valenke e viu que não havia como salvar Dioní.

É claro, eles ficaram surpresos quando perceberam que o cadáver não estava mais ali, mas logo sentiram o cheiro novamente. Arvallo não havia terminado de comê-lo, ainda havia carne para os três, mas os outros dois foram movidos por outros sentimentos. Valenke se viu sendo contrariado por ainda outro da sua própria alcateia enquanto Ignor notou que na verdade não estivera preparado para ver o que aconteceria com Dioní.

Foi Ignor quem pulou e mordeu Arvallo, então jogou-o quase para fora da caverna. Valenke, que então estava mais próximo, mordeu-o mais uma vez, desta vez segurando o corpo de Arvallo com as patas enquanto puxava. Os dentes fortes tiraram um pouco de pele de Arvallo, mas ele conseguiu voltar a ficar em pé. Soltou um gemido enquanto andou até um canto.

Valenke apenas rosnou para ele, mas Ignor voltou a atacar, mordendo-lhe o tronco e, quando caiu, mastigando-lhe as pernas. Incitado por essa ação, Valenke voltou a agir na ofensiva e começou a atacar Arvallo, que logo não pôde mais ficar em pé. Ignor voltou para o fundo da caverna ver o namorado, então, como se essa visão o tivesse renovado a fúria, matou Arvallo.

Desta vez os dois compartilharam a carne, mas deixaram Dioní no canto, mesmo que ainda houvesse para os dois. O rosto dele já não era mais reconhecido e o corpo estava todo mordido, não havia pele no estômago. Valenke, quando o sol já começou a se aproximar e a razão humana começou a voltar, pensou que seria melhor não levarem o rapaz para a família.

Seria melhor enterrarem o corpo e fingirem que aquilo não havia acontecido. O cadáver estava desfigurado demais para que os familiares vissem. Na verdade, achou melhor impedir Ignor de vê-lo e enterrá-lo-ia ele mesmo. Quanto a Arvallo, ninguém se importava com ele.


Lucas Zanella

No blog posto geralmente textos de opinião assim como também histórias curtas. Aqui você encontrará fantasia, terror e ficção científica. Talvez até mesmo algum drama ocasional.

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