As Estrelas Não Brilham Mais

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Era passado das três da madrugada quando os gritos começaram. Não demorou nem mesmo um minuto e já haviam cessado. Rômulo estava dormindo, criara o costume de deitar-se cedo. Acordou num pulo, o coração também agitado, e por um breve momento teve a certeza de que o grito fora um sonho. Agudo, firme, duradouro, que cessou de supetão, sem nem dar um aviso.

Mas era impossível, seus tímpanos ainda tremiam, chegavam a quase sangrar. Levantou-se da cama e abriu a janela, pôs a cabeça para fora, mergulhou-a na escuridão noturna. A única certeza que tinha era a do breu. A lua, flutuando no céu, continuava a iluminar as ruas, mas era um brilho leve e insignificante. Mal conseguiu ver a silhueta das casas. Um retângulo laranja saía da sua janela e caminhava até o chão, onde iluminava a terra plana.

Estrelas, então, não se viam em lugar algum. Tão ausentes quanto as memórias da infância esquecida. Deveria ter posto um fim naquilo e voltado a dormir, mas o pensamento do grito ainda o perturbava. Agudo, firme, duradouro. Pegou o lampião e checou a querosene, havia pouca, mas o suficiente para uma rápida investigação. Andar pela rua talvez fosse trazer seu sono de volta.

Nunca tivera muito dinheiro, e por isso o bairro no qual vivia não era dos melhores. Casas de bandidos ficavam por toda parte, e também a de drogados. Apesar de tudo, ele até que gostava dali. Os malfeitores nunca lhe fizeram mal, certamente já sabiam que Rômulo tinha tanto dinheiro quanto eles. A pobreza, nesse caso, sempre foi algo bom.

Ele era um círculo de luz no meio da estrada, movimentando-se lentamente. Não tinha a mesma agilidade de quando era jovem, como era de se esperar. Corujas em galhos cantavam canções que ele não entendia, e cachorros no distante latiam uns para os outros. Eram sons costumeiros, e que se tornaram música calma após tantos anos.

A casa ao lado da sua era grande, uma mansão, embora estivesse toda acabada. As janelas estavam caídas ou a ponto de cair. As paredes de madeira tinham mais cupins do que havia de gente na Terra. Sem falar da bizarra aura que circulava todo o lugar. Passando para a calçada, Rômulo sentiu os pelos da nuca se eriçarem e a mão que segurava o lampião tremer. O ponto de luz tremeu junto dela.

Ele olhou em direção ao topo dos degraus. As portas estavam abertas. Uma delas, na verdade, se mantinha em pé apenas porque não se desprendera de um dos dois pontos que a ligavam ao batente. A escada de alguns poucos degraus também era de madeira, e ele testou a tábua para ter certeza de que aguentaria o seu peso. Quando teve certeza, subiu e adentrou a mansão.

– Alguém aqui? – gritou, elevando o lampião à altura dos olhos e dando mais alguns passos.

Morava no bairro há quase dez anos, e nunca antes vira alguém entrar naquele lugar. Algo lhe dizia que seria estupidez continuar a procurar por respostas ali, mas algo também lhe disse que era na mansão que as acharia.

Os cantos dos portais estavam cobertos em teias de aranhas e no chão o correr de patas minúsculas. Rômulo levou a mão aos cabelos ao sentir algo cair neles. Eram fragmentos de madeira que deviam ter caído pelas frestas grandes que havia no teto.

A escada que levava para o segundo andar possuía muito mais degraus do que anterior, e o velho achou que talvez fosse ali que a sua jornada acabava. Não era tolo de tentar subir, tudo acabaria desabando. A casa inteira seria engolida pela terra.

E não subiria. Se não fosse, é claro, por aquele brilho tênue que passou por entre as frestas assim como os fragmentos. A luz bruxuleava, dançava e fazia sombras distorcidas das tábuas e de outros objetos que Rômulo não viu.

Testou o primeiro degrau, e fez o mesmo com o segundo. Subiu na certeza de que cairia. Tropeçaria e seu peso derrubaria tudo. Era muito magro, mas a casa parecia mais frágil do que ele. Era de se surpreender que o vento não a houvesse derrubado.

Na medida em que subia os degraus, a sensação de pavor se apoderou do velho, tomando-o por completo. Era um crescente medo de que algo de ruim lhe aconteceria, de que morreria bem ali, naquela casa de nada. Preferiria que isso acontecesse na sua própria moradia, ao menos ela Rômulo conhecia, cada rodapé, cada poeira não espanada da televisão de tubo…

Subiu e era como se tivesse deixado a felicidade e a esperança o esperando no primeiro degrau. Isto é, se é que voltaria para pegá-las.

Velas, espalhadas por todo o cômodo, balançavam por conta de brisas que penetravam através das frestas da parede. O passo de Rômulo era lento e, com isso, também bastante atento. A velhice trazia consigo uma benção, afinal. Ele não teve dificuldade em caminhar evitando as grandes frestas, grande o suficiente para engoli-lo, pelo menos.

Os buracos no chão foram se encolhendo até que se encaixaram e planaram. Era para lá, no fundo daquele sótão, que havia algo que chamou a atenção. O símbolo da besta tomava conta de toda a parede, fora desenhado em tinta branca e pintado à mão. Mas na madeira tinha lascas e no meio do caminho sangue se misturou à tinta. Um pentagrama invertido parte branco, parte rosa e parte vermelho-escuro. Foi então que o cheiro de podridão chegou às narinas de Rômulo.

Seu olfato vinha enfraquecendo com o tempo, então para sentir tão forte aroma, ele devia ser insuportável. Deus, devia conseguir chegar à casa dele, ao lado, ou então ir mais além. Não ligou para o barulho de passos e voz que ouviu vindo da rua, pois estava concentrado naquele momento.

As várias velas estavam dispostas no chão em um círculo grande, e no centro havia um livro sobre um suporte bege avermelhado. Um livro grosso, de mais de mil páginas finas, o velho julgou.

– Está tudo bem por aqui? – uma voz perguntou lá de baixo. Rômulo não respondeu.

Em frente ao livro aberto, sangue espalhado pela madeira cheia de lascas. Não era uma poça de sangue, mas sim como se ele tivesse sido espalhado cuidadosamente por ali.

Como não havia frestas naquela parte do sótão, ele não pingava para o primeiro andar. Rômulo se aproximou, o lampião chacoalhando mais que uma árvore no olho do furacão. Na medida em que caminhava em direção ao pentagrama e o círculo de velas, o ar ficava mais e mais gelado. Sentiu uma brisa passar por seu pescoço e estremeceu.

Uma mão apertou seu ombro e o virou.

– O que aconteceu aqui? – era um jovem alto e negro, sua boca estava aberta em espanto e suas sobrancelhas, curvadas.

Rômulo demorou alguns segundos para encontrar a saliva e as palavras.

– Eu não sei. Ouvi um grito e vim para cá.

– Você sabe quem mora aqui? – o garoto perguntou, espichando o pescoço para olhar o local do círculo.

– Ninguém mora aqui, essa casa está desabitada há pelo menos cinco anos. Nunca vi uma alma entrar aqui e agora que venho ver, encontro essa porcaria.

– Satanistas – o garoto disse, ainda olhando para a parede com o desenho.

– Não sabia que tinha satanistas aqui por essa região. Se soubesse, nunca teria vindo. Ladrões e assassinos são uma coisa, mas satanistas… Quem é que sabe o que eles fazem?

O jovem demonstrava claro desconforto em relação ao símbolo.

– Vamos descer, vamos conversar lá embaixo.

E então eles desceram. Rômulo passou pelo primeiro degrau, embora a sensação de ter recuperado a alegria e a esperança não houvesse voltado. Parece que ficaram presas ali, sugadas pela casa.

Não se sabia dizer se a sensação de ter olhos a toda hora o vigiando era por conta da escuridão, dos ratos, baratas e aranhas ou porque realmente havia alguém – ou algo – sempre na espreita. O garoto se apresentou como Guina, morava na casa da frente. Apesar de serem vizinhos tão próximos, o velho nunca antes havia o visto.

– Você não prefere me dar isso aí? – Guina disse, apontando para o lampião que tremia. Rômulo o estendeu. – Venha, talvez tenha algo para descobrirmos por aqui.

O cômodo no qual entraram tinha ainda mais teias. Por certo momento, Rômulo sentiu que uma aranha se arrastava pelo seu braço, mas não encontrou nada quando olhou para ele. A sensação continuou por algum tempo, até ser trocada pela de ratos passando por seus pés. Um vazio crescente tomava conta do seu interior.

Era uma sala grande, com sofás cujo tecido e couro foram roídos em partes, uma lareira sem lenhas e um quadro acima dela. A inscrição numa plaqueta dourada dava o nome do homem que ali era retratado, em terno e gravata antigos, da era de colonização. Deodoro Mendonça.

– Olhe aquilo ali – Rômulo apontou para um canto.

– O que?

Enquanto todo o resto ali era tão velho quanto Rômulo, uma partezinha do salão era mais limpa, a poeira e teias de aranhas foram postas para o lado e restos de comida estavam no chão. Uma garrafa de leite estava deitada, Guina tocou nela com a ponta do pé e ela rolou sem pressa pelo chão.

Havia alguns papéis espalhados, que Rômulo identificou como páginas rasgadas de algum livro. Agachou-se com dificuldade, as costas estalaram e doeram. Os joelhos, a mesma coisa. Pegou uma das páginas e fez sinal para que Guina iluminasse ali, o garoto o obedeceu.

– É apenas mais coisa satanista.

– O que diz?

– Fala sobre invocação. Dê-me aquele ali – pediu, apontando para uma página mais ao longe. Guina a entregou, as sombras produzidas pelo lampião balançaram mais uma vez. – É tudo sobre invocação de demônios, malditos satanistas. Para que querem invocar essas coisas?

– Mas por que vir até aqui para fazer isso?

– Porque ninguém vem aqui, claro. Pensou que nunca seria descoberto.

Novos grunhidos de dor quando o velho se levantou e se espichou. Olhou para os lados em busca de novas informações. Guina foi até a lareira e examinou um crânio que estava sobre um suporte de pedra. Ele tinha na mão outra página, que começou a ler.

– Parece que o cara estava querendo trazer alguém de volta dos mortos – disse, escorando-se no crânio.

– Como você sabe?

– É o que diz aqui, e fala o que tem que fazer para chamar o demônio. Pelo que vi lá em cima, não sei se deu muito certo. O que a gente faz agora?

– Eu vou para casa dormir. Não quero ter nada a ver com isso, está me entendendo? Se perguntarem algo, eu não estive aqui. A última coisa que quero é me envolver com satanistas. Não, senhor.

– Não quer saber como foi que o cara fez isso? Quer dizer, tudo bem que não é algo de Deus, mas… é incrível mesmo assim!

– Não quero me envolver com o Diabo. Pra mim, Ele pode ir para o raio que o parta. Boa noite.

Guina estendeu o lampião para Rômulo e ficou em pé, observando-o enquanto ele saia. O garoto tinha um olhar de desapontamento no rosto. Depois que o velho passou pela porta, a luz cessara dentro da mansão. O único brilho era o das velas no segundo andar, mas Rômulo acreditava que o outro era esperto o suficiente para não subir lá de novo somente para pegar uma.

Deitou a cabeça no travesseiro após apagar o lampião e fechou o olho. A janela continuava aberta por conta do calor que dezembro trazia consigo. Volta e meia, Rômulo espiava por ela, mas continuava a ver nada além da escuridão. A negritude despertava a sua imaginação, mil monstros poderiam estar escondidos esperando para dar o bote. Gotículas de suor apareceram em sua testa, e o mesmo com seus braços e pernas. O lençol grudava na sua pele e sua garganta se fechava para o mundo, o pulmão recusando-se a funcionar.

O mundo à sua volta começava a também escurecer, ele perdia o ar. Pensou estar morrendo, mas não, estava apenas caindo no sono. Sonhou.

Rômulo viu, na escuridão da sua janela, o rosto de uma criatura, vermelho e grande, tinha dentes amarelos e grossos que saltavam da boca. Os olhos, bem como os de um desenho, estavam enterrados no rosto morto, o ponto preto fixo no velho, vendo-o, julgando-o, até mesmo dizendo quanto sua alma valia.

O rosto foi para trás e o grande monstro pôs uma mão para dentro do quarto, um braço longo e musculoso, da mesma cor do rosto, com pequenas quebras que lembravam lascas em madeira. Unhas longas, amarelas e afiadas. Rômulo viu o monstro tapar sua cabeça com a mão quente, queimou seu rosto, sentia-se como gado sendo marcado pelo ferro esquentado.

Outro grito. Grave, firme, duradouro.

Acordou com a mesma pele suada e grudenta. Sem pensar no assunto, agarrou o lampião e acendeu-o sem checar a querosene. O maldito garoto precisava ter ficado na casa! Ele deveria ter simplesmente ido embora, feito o que o homem mais experiente lhe disse para fazer, mas jovens são todos iguais, desobedientes e rebeldes. Rômulo bem sabia, fora o mais rebelde de todos.

O lampião já não tinha mais uma cúpula de vidro, então o vento batia na chama e tentava apagá-la. Se o velho estivesse andando, isso não seria problema, mas ele corria e o vento batia em sua pele. Era como se parte dele também ficasse grudado nela.

A adrenalina corria pelo corpo de Rômulo e ele não sentia o peso de seus passos ou a dor na sua perna. Corria como um atleta, e saltou pelos degraus até chegar na mansão de madeira. O grito de Guina não cessara abruptamente como o que primeiro levara Rômulo até a casa, ele permanecia, tão aterrorizado quanto da primeira vez. Era constante.

O velho estava pouco se fodendo se a alegria e a esperança ainda estavam presas no primeiro degrau, subiu até o sótão e viu a imagem de seu sonho. O monstro saía da parede onde o pentagrama invertido fora desenhado, e suas unhas riscavam o chão na tentativa de chegar até Guina. O garoto tinha os olhos bem fechados, estava se comprimindo contra a parede oposta e se fizesse mais força era capaz de arrebentar a madeira.

– Deus do céu – Rômulo gritou. O rosnado do monstro era alto, e junto dele vinha outros gritos que o velho teve certeza de pertencerem a almas-danadas. O pouco que se via do lugar de onde o torço do demônio vinha mostrava apenas uma coisa, o fogo do inferno. Vultos negros, como fumaça, passavam de um lado para o outro.

Guina abriu os olhos e virou a cabeça para ver Rômulo. Este fez um sinal para que o jovem corresse até ele. As pernas do garoto tremiam e ele mal conseguia movê-las um centímetro. Quando o braço magro chegou perto o suficiente, Rômulo o puxou para a escada e fez com que o garoto se segurasse no corrimão, que balançou bastante e então se partiu. Mas Guina já estava equilibrado no degrau.

– O que você vai fazer? – ele perguntou.

– Queimar esta merda.

Mirou na direção do círculo de velas, que ainda estava milagrosamente intacto. Precisou ter cuidado para não acertar a mão ou o braço do demônio. O lampião caiu e se quebrou todo. Velas caíram deitadas e rolaram, a pouca querosene se espalhou por onde conseguiu. Sendo a casa toda de madeira, e uma madeira podre, tão cedo o fogo começou.

Não ficaram para ver o que aconteceria. Ele empurrou Guina escada abaixo e então porta afora. O garoto deu um salto para a calçada e caiu no cimento frio. Rômulo se segurou no apoio para não cair. Afastou-se junto de Guina para o outro lado da rua e observou a mansão com olhos atentos.

De fato, a terra começava a engoli-la. Virou a cabeça para o jovem e este fez a mesma coisa para o velho. O brilho do fogo estava refletido na íris escura do outro, Rômulo percebeu.

– O que foi que você fez?

– Apenas subi até o segundo andar, estava procurando saber quem havia feito aquele desenho e chamado o demônio.

– E encontrou alguma coisa?

– Não consegui. Quando cheguei perto do círculo e daquele livro, aquela coisa apareceu.

– Bom, garoto – Rômulo disse –, então suponho que a gente nunca vá descobrir.

Eles continuaram na calçada, observando o fogaréu comer a casa. O fogo não se espalhou, mas seu brilho invadiu o bairro todo. As pessoas saíram das suas casas ou apareceram em janelas para ver o que acontecia. Junto da lua que estava de saída, nenhuma estrela à vista. O céu permanecia limpo, embora agora também inundado por labaredas se assemelhavam a garras alaranjadas.

Ninguém além dos dois saberia o que realmente aconteceu.


Lucas Zanella

No blog posto geralmente textos de opinião assim como também histórias curtas. Aqui você encontrará fantasia, terror e ficção científica. Talvez até mesmo algum drama ocasional.

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