Às Sombras

Sombras

     Um beco escuro parecia mais a trama para um filme de terror cafona feito por universitários no primeiro semestre de Cinema do que a realidade. Mas era lá onde ela estava, toda sozinha, nas entranhas da escuridão, esperando para ser novamente consumida pela luz dos postes que estavam do outro lado. Sempre pegava aquele caminho ao sair da universidade, era o mais rápido para a casa.

     Uma longa passarela de cimento negro estava sob os seus pés vestidos de um tênis leve que usava basicamente todo dia – tinha dois do mesmo modelo! Aos lados apenas paredes que descascavam, tão derretidas quanto aquela pintura do Dali, A Persistência da Memória. Eram de uma cor neutra, talvez branca ou um cinza claro, e que já era basicamente ausente: restava apenas as lascas de tinta no chão e o cimento bege antes escondido atrás da cor.

     Soltando suspiros a intervalos regulares, puxou sua pasta para mais perto de si, e cobriu-a com a mão, não que isso fosse impedir qualquer coisa. Naquele momento, perdida nas trevas, culpou-se por ter ficado na faculdade por mais algum tempo para concluir aquele trabalho de Semiótica. Pela manhã estivera quente, mas à noite era o frio que reinava, e culpou-se por ter posto uma saia e não levar um casaco, mas pelo menos a camiseta era grossa, e grande.

     Olhou para trás, para checar o som de passos que ouvira, e foi quando viu a silhueta que caminhava à sua direção, decidida.

     O coração deu um salto e ela voltou a cabeça para a frente, o seu destino estava um pouco além, talvez pudesse alcançá-lo logo. Apurou o passo um pouco mais. Se estivesse voltando de uma festa, com um salto alto, sabia que não teria conseguido aquilo. O beco se expandia na medida em que ela andava mais rápido, como se alguma força sobrenatural estivesse disposta a fazê-la ficar ali, longe da luz segura da rua. Talvez até mesmo conseguisse encontrar algum policial fazendo ronda do outro lado. A parte iluminada tornava-se apetitosa, queria tê-la, queria chegar lá, mas ela não chegava mais perto, apenas se distanciava sem parar.

     O som lhe chegou aos ouvidos, após baterem nas paredes carcomidas, eram passos que ficavam também mais rápidos. Logo teve certeza de que a silhueta estava se apressando. Arriscou outra olhada para trás, agora tinha certeza de que era um homem, alto e forte, que se aproximava com mais rapidez do que ela poderia correr até a luz que a salvaria. Embora também tivesse certeza de que uma luz não a protegeria dele. O professor de Fotografia costumava dizer que “quando um homem decide fazer algo, ele não para até conseguir”. Pensando nisso, o estômago se embrulhou.

     O som descontínuo da respiração dele se aproximava com intensidade. Um sopro quente de expiração bateu na nuca desprotegida da garota. O homem bateu em seu ombro com descuido, ela sentiu o coração parar e todo o ar ser sugado do seu cérebro.

     – Com licença – disse ele, e prosseguiu com a sua corrida noturna.


Lucas Zanella

No blog posto geralmente textos de opinião assim como também histórias curtas. Aqui você encontrará fantasia, terror e ficção científica. Talvez até mesmo algum drama ocasional.

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