Casa de Bonecas

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Sabe-se lá quando foi que o casarão apareceu. Teve um dia em que ele simplesmente emergiu do chão, como uma daquelas cobras que levantam seu corpo na medida em que um cara toca a flauta. Mas naquele dia em particular, não se ouviram flautas, nem mesmo algum som delicado como os gritos melodiosos de um passarinho.

O som que invadiu a cidade foi o de uma rachadura. As pessoas andavam pela calçada e então, como se a própria Terra estivesse sendo amarrotada por Deus, ouviam os barulhinhos. Foi o homem que todos chamavam de Mago quem primeiro tentou explicar o som.

– Tártaro – ele disse. – Esse som vem das mais profundas entranhas do Tártaro. O riso do monstro.

– É Tártaro peidando e a mãe Terra brigando com ele – alguém ridicularizou. A piadinha foi seguida por risadas nervosas. O Mago não riu, apenas encarou o garoto como se considerasse a sua história.

Talvez, as pessoas diriam depois, o morador de rua fosse justamente a pessoa que sabia o que estava acontecendo. E se lhe perguntassem uma explicação em boa fé, ele poderia lhes dar uma. Não fosse, é claro, pelo sumiço.

Einstein era um gênio e vivia com seu cabelo bagunçado, o mesmo acontecia com o Mago. Apenas dois meses depois do desaparecimento foi que um fotojornalista notou uma imagem esquecida no seu computador, sem edição, sem nada de especial. Era o velho, com seu cabelo branco acinzentado desarrumado, olhando para a câmera com a língua para fora.

Santo Pai, o Mago poderia muito bem ser a reencarnação do homem da teoria da relatividade, mas ninguém nunca saberia. Poderia até – alguém pensou em determinado momento para nunca compartilhar o pensamento. – Poderia até ser Deus disfarçado. O Homem que veio à Terra que criou para inspecionar. E, se fosse isso, o casarão era o Diabo de tijolos e estuque.

De dois andares, com uma varanda singela cercada por uma barrinha de ferro que não impediria alguém de cair. E se caísse, se espatifaria no mais concreto chão de concreto. Outra coisa que também se materializou, pois antes o terreno baldio tinha apenas graminha que cavalos comiam. Os cavalos também haviam sumido. Seu Jorge ficou reclamando por mais de três horas completas que alguém haveria de pagar pelos bichos.

Não tinha nenhuma cerca protegendo a casa do resto da cidade, era como se ela, a própria moradia, estivesse convidando a entrar quem quer que passasse por perto.

Do fundo do Tártaro.

O Mago acordou e notou a casa que do nada surgira, olhou para os lados e pensou em gritar para alguém sobre a sua descoberta, mas nada fez. Apenas a observou atentamente, seus olhos focados em tudo ao mesmo tempo. Até os cupins deveriam estar em seu campo de visão.

Como não havia viva alma por perto para que pudesse falar, resolveu entrar ele mesmo. Não precisou abrir a porta, a casa fez isso por ele.

No primeiro andar havia pouca coisa além do chão acarpetado. Assim que a porta se fechou, novamente por vontade do local, pouca luz ficou para que o Mago pudesse observar bem a construção e os móveis. O chão, ele conseguia sentir nas pontas dos pés, sendo que na sola deles já não sentia mais nada por conta das noites de inverno do sul. Aterrorizantes, ele diria brincando antes a respeito do frio. Depois da casa, nunca nem mesmo passaria pela sua cabeça brincar com o Terror.

A escada era de cimento, não de madeira. Ele notou que havia nada que fosse de madeira no lugar além da porta. Mesmo as janelas, apenas agora ele notou, tinham venezianas de uma espécie de metal cinza que muito se parecia com o estuque das paredes.

Se carpete é considerado móvel, no primeiro andar só havia ele. Não havia nem mesmo um banquinho ou uma mesinha, ou algum papel de produto industrializado jogado no chão. Estava, o carpete, impecável. O auge da limpeza que se desfez em tão pouco tempo.

O Mago foi capaz de seguir seu caminho de volta para a sala principal através dos seus rastros. Eram como pegadas de carvão. Com entendível preocupação, o velho percebeu que estas mesmas pegadas de carvão poderiam muito bem terem sido ali queimadas. Elas ardiam.

O inferno arde, que é que esperava?

Os degraus da escada não pareciam ter diferença de temperatura. Sob os pés, o Mago sentiu que eles fossem de madeira, mas os olhos não enganavam. Não era letrado, mas conhecia as coisas. Para se viver na rua, certa Inteligência é necessária.

Chegando ao segundo andar, foi logo que percebeu que ali não havia carpete. O chão era gelado, agora sim o cimento tinha textura de cimento nos dedos. Mesmo na escada, embora defeitos de massa aparecessem, ele sentia madeira polida e envernizada. Embora, se lhe perguntassem, não saberia dizer com essas mesmas palavras. Liso, é, isso seria o mais próximo que encontraria para descrever.

Ali também não havia madeira, mas havia móveis. De cimento. Banquinhos, mesinhas, tudo que é coisinhas. Bonitos e tudo o mais, mas esquisitos.

Foi num dos quartos que o Mago encontrou finalmente objetos diferenciados. Se soubesse contar, exageraria que eram mais de mil bonequinhas, mas não chegava nem perto de quinhentas.

Algumas de madeira, outras de cimento, também de pano e de espigas de milho. Veio-lhe à cabeça a memória dele roubando milho para que a irmã pudesse fazer um brinquedo daqueles, mas Isabela nunca antes fizera algo tão… escroto. Assustador. Aterrorizante, é isso.

Elas todas tinham olhos bem abertos e expressões vazias, como se fossem pessoas miniaturizadas e que tiveram suas almas retiradas. Olhavam-no como se o desejassem. A alma do Mago talvez não fosse pura, mas as saciaria. Seria de lamber os beiços.

As bonecas estavam todas juntinhas e arrumadinhas em estantes de cimento, mesas de cimento, bancos de cimento, penteadeiras de cimento. As do chão estavam simplesmente jogadas ali como se uma criança travessa estivera com preguiça de arrumá-las em seus respectivos lugares.

Um espelho numa moldura de cimento, escorado num canto. Viu seu reflexo e também o das bonecas. Uma delas moveu a cabeça. Isso fez com que o Mago se virasse num desespero sem igual. Assim, elas não se moviam, mas se voltasse a olhar para o espelho notaria que a maior delas estava em pé. Não era gigantesca, dava na altura do peito do Mago, mas só a expressão era fria e esquisita.

Se ele visse pelo espelho.

Se ele visse pelo espelho, a boneca não estaria parada com aquela expressão. Não, pelo reflexo ela se movia e piscava, e mexia os lábios como se falasse com as outras ao redor. E as outras ao redor moviam seus lábios como se respondessem.

Na visão do Mago, paradas. Quem lhe dera ser mesmo um mágico e puder simplesmente sumir dali. Mesmo assim de nada adiantaria, ele não se virava para o espelho.

Todas em pé agora, embora ele não visse isso. Talvez tenha sido o movimento de todas em conjunto que fez com que os sons do fundo do Tártaro voltassem. Ou então seria porque o monstro sabia que aquilo já estava no fim. Mago não iria se virar, ele mesmo sabia disso. Não viraria para ver o espelho mas mesmo que visse de nada adiantaria. Um grito, e então, nada.

Algum tempo depois uma mãe que caminhava na rua com seu filho entrou no terreno baldio para ver o que era aquilo que chamara a atenção de seu olho. Pisou na graminha e ultrapassou os cavalos.

– Olha, Miguel – gritou para o garoto que a esperava atentamente, sendo o bom filho que sua mãe lhe dizia ser. Ele correu pela terra até chegar nela, que mostrou o bonequinho e disse: – É o Einstein, viu?

O menino estendeu a mão e pegou o boneco. Sua primeira reação era dizer “não é, não”, pois ele já vira fotos do cientista e aquilo ali podia até ser parecido, mas não era a mesma coisa.

– Quer levar para casa? Eu lavo e depois coloco lá na cabeceira da sua cama!

O menino assentiu, mas poderia jurar que viu o boneco mover os olhos.


Lucas Zanella

No blog posto geralmente textos de opinião assim como também histórias curtas. Aqui você encontrará fantasia, terror e ficção científica. Talvez até mesmo algum drama ocasional.

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