Cegueira

Milô, disfarçado de operário para ver como seus empregados trabalhavam, foi pego pelo sistema. Vestiu um dos uniformes que estavam sobrando no vestuário e passou a caminhar pela indústria, observando os outros trabalhadores. Queria ter certeza de que todos faziam o seu serviço do modo correto.

Passeava despreocupado, de mãos vazias e na cabeça apenas o capacete amarelo que era recomendado usar. Seus empregados faziam tudo o que deviam fazer, e a produção andava tranquilamente. O supervisor do setor o pegou vadiando e o pôs para trabalhar nas máquinas pesadas. Milô passou o resto do dia numa salinha quente, suando num balde. Ao fim do expediente, saiu junto dos outros e foi para a casinha de madeira caída de trabalhador. Sua mulher estava no fogão, fazia comida, e os quatro filhos brincavam sem saber o que mais havia para fazer na vida. Muito em breve teriam que trabalhar também, para ajudar no sustento.

À noite ele chorou por não conseguir ver um futuro bom para o resto da família. Amanheceu com a sensação de que morariam naquela casa miserável para sempre. Precisou acordar cedo para ir ao trabalho, era regra chegar às cinco da manhã, assim no horário-comum, sete horas, estariam dispostos e no alto da vontade. Uma ova. O maldito chefe era quem falava isso, e no almoço daquele dia, comendo da sua marmita suja, Milô reclamou junto dos outros funcionários.

– Um grande filho da puta – disse.

– Ainda se pagasse bem, mas o vagabundo nem se dá ao trabalho.

– Como se essa fábrica fosse continuar sem a gente.

Foi ao banheiro, e viu que nenhuma das privadas realmente funcionava. Não importava, todo mundo se aliviava ali mesmo assim. Ele não seria o único a não o fazer. Não tinha condições de pedir por algo melhor, sabia que o chefe não daria nada. Se algo, demitiria o infeliz para dar o exemplo de que não devem reclamar.

Continuava a suar no balde que mais tarde usaria para o banho, e foi quando o supervisor de outro setor apareceu e o reconheceu. Milô estava tão sujo e vagabundo que não parecia ele mesmo, mas foi levado de volta ao seu escritório. Lá havia ar-condicionado. Vestiu roupas limpas que pediu para o mordomo trazer no jatinho. Para livrar-se da água do suor por completo, mais tarde iria a Miami tomar um banho na praia.

Então, tão subitamente quanto começara, tudo acabou. As coisas todas voltaram ao normal, tudo ia bem, e nada carecia mudança.


Lucas Zanella

No blog posto geralmente textos de opinião assim como também histórias curtas. Aqui você encontrará fantasia, terror e ficção científica. Talvez até mesmo algum drama ocasional.

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