Crescente Agonia

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Mudei-me para a casa de meu avô aos cinco anos, talvez menos porém são tempos passados, de memórias corridas, já excluídas de minha mente. Aqueles tempos eram outros, quando era feliz, talvez, e também quando era são. Quando tinha a cabeça no lugar, quando não trocava os pés pelas mãos.

O nome de meu avô era Juca Pitanga, e chamo-me Mico (é o apelido que deu para Carmichael por não saber pronunciar direito). Meus pais sempre quiseram fujir deste país de merda no qual agora vivo em companhia do homem grisalho. A filha dele foi para os Estados Unidos, lá conheceu meu pai e casaram. Nasci americano, e era para nunca ter morado no Brasil, mas eles quiseram que meu avô conhecesse o neto. Quando fiz cinco, vieram eles para cá, planejaram para que a viajem fosse meu presente. Conheci o velho nesta mesma idade, e não saí do seu bendito lado desde então.

Minha mãe esteve certa em escapar das garras afiadas do país. Os dois saíram, meu pai queria conhecer as ruas, a cidade, e foram assassinados por um drogado em busca de dinheiro para o crack. Não é uma boa história, eu disse. Ou talvez não tenha dito, mas isso vale como aviso. Eles mortos, e eu órfão. Tinha família no país bom, mas a justiça me pôs com o pai de minha mãe, e não pude fazer nada. Agora mesmo ainda não tenho a moral ou a idade para esconder-me do velho. Esconder-me do Brasil, que a cada dia me deixa mais e mais louco. Mais e mais… agoniado.

País de merda. Ruas mijadas, sacolas de lixo brancas, azuis e pretas jogadas nas calçadas, escorrendo pela valeta em dias de chuva. E a água passa para o quintal da casa, tem vezes que passa até mesmo para dentro, inunda a sala com a água brasileira. A água que destrói tudo em que toca, mas mesmo correndo pelas canelas de meu avô, não o destruiu. O velho ainda vive. Respira melhor que um atleta, um coração que bombeia mais sangue que as presas de um vampiro, pernas mais fortes do que as de Bolt. Seu aniversário foi há algumas semanas, deve ter feito noventa e quatro anos. E a contagem não acaba. O maldito, é bem capaz, vai viver mais do que eu. Pode muito bem sentar numa pedra e observar o sol engolir a Terra no último dia do mundo.

E se ele morresse, eu voltaria para a minha família americana. Eu SEI disso. Só que o velho não morre. E a cada dia que se passa eu me enojo mais e mais ao observar suas manias, seus rituais, suas rotinas. O mastigar, que era o bater de dentes falsos, pareciam latidos ao lado dos meus ouvidos. Seus olhos, castanhos, começaram a embranquecer, uma camada de leite aparecia sobre aquelas bolas de gude. Era o glaucoma.

Ao anoitecer, assistia a novelas na televisão. Era analógica, e ele girava um botão para encontrar o canal correto, seu preferido, aquele que o dava pensamentos prontos e mastigava tudo para pôr em sua boca, como bem merecia pois era tão velho que mal conseguia cortar a própria carne. Mas eu não o ajudei, nunca. Não sonharia nem mesmo em chegar perto do velho, com aquela pele caída, toda enrugada, cheia de poros visíveis a olho nu.

No comercial da novela, levantava-se e ia para o quarto, voltava meia hora depois (era o que parecia levar, com aquela lerdeza de merda) com um remédio na mão. Pingava gotas do vidro no olho e depois piscava com vontade, várias vezes, com o líquido escorrendo pelo rosto e se escondendo nos vãos da pele provocados pelas rugas. Então batia com o vidro de remédio na mesa de madeira que ficava ao lado do sofá e esticava as pernas, colocava-as sobre uma mesinha pequena de centro. Sentava-me ao seu lado, numa poltrona separada, sempre sem olhá-lo, e também sem levantar os olhos para a televisão com o canal para velhos.

Seus ossos que poderiam naquela idade simplesmente quebrar a cada movimento estavam firmes, e no meio da novela ele costumava estalar seus dedos e espreguiçar-se. Era impossível não ouvir, mesmo estando concentrado na tela de meu celular. Talvez no meio, ora ou outra, ele soltava um pum sem nem perceber. Quando via que eu o encarava, virava a cabeça distraído e me observava, esboçava um sorriso ao me ver. Sempre retribuía o melhor que podia, sem saber por que me dava ao trabalho. Àquele ponto ele apenas via uma figura borrada, sem rosto, sentada ali perto.

Desci a escada para o primeiro andar num dos últimos dias, e o encontrei deitado no sofá, a televisão ainda ligada num programa qualquer. Ele dormira ali, pelo que parecia. Eu subira para meu quarto momentos antes de ele adormecer. Aproximei-me com cuidado para não tocá-lo e o vi deitado, de peito parado. O piso da cozinha estava gelado sob meus pés. Preparei um café e o bebi enquanto comia pão e manteiga. Era tudo o que tinha naquela casa.

Passaram-se duas horas, o velho já devia estar acordado. Costumava levantar-se mais cedo que o galo, e ligava o rádio na cozinha enquanto bebia chimarrão com a porta dos fundos aberta, sentado numa cadeira e encarando a vastidão da cidade. Sua audição já estava fodida, e ele não sabia disso, é claro, mas colocava o rádio no volume máximo, acordando-me no mesmo minuto. Devia ouvir nada ou perto disso. Faria pouca diferença se eu o xingasse na sua frente, mas nunca o fiz. Sempre fui o neto perfeito, sempre o obedeci e fiz o que pedia, até um ponto.

Talvez fosse justamente naquele dia que ele pretendesse me recompensar, sabe, pelos esforços. Era um sufoco ficar no mesmo cômodo que ele. Voltei à sala, ele ainda estava deitado, de peito parado. Voltei sem pressa para a cozinha e de uma gaveta de madeira lascada tirei um grande facão, de lâmina afiada e polida. Observei-a contra a luz do sol, e ela a refletia com perfeição. Vi-me do outro lado, de olhos abertos, também castanhos, e as sobrancelhas curvadas.

Ele continuava deitado quando voltei com o facão na mão direita, esta pendendo com preguiça ao lado do corpo. A televisão começou a passar um desenho animado da manhã, mas não prestei atenção nela, nem mesmo cheguei a desligá-la. Estava na hora de receber meu presente.

Ajoelhei-me ao lado do sofá, um pouco afastado da pele enrugada. O cabo do facão era longo suficiente. Uma das pernas do velho estava caída, o chinelo velho que usava durante as noites no chão, mas continuava no outro . Levantei a faca e a estendi. Coloquei-a sobre o bigode branco fino e quase sem pelos dele, na vertical. Esperei alguns segundos, não movi meus olhos, estava focado. A lâmina permaneceu como estava, deveria ter embaçado. Então ele realmente morrera. Finalmente morrera.

Puxei a faca, uma linha vermelha surgiu em meio ao bigodinho branco, e o sangue escorreu até os lábios. Começou a tomar a forma do mesmo, escorrendo pelos lados. Larguei a faca no chão. Aquela não fora a minha intenção, mas não havia motivo de pânico, ele não sentira nada, já estava morto. Voltei a ficar em pé, e continuei a fitá-lo por um minuto ou dois, fascinado com a cor de seu sangue. Certo momento poderia jurar que estava amarelado, mas logo o tom vermelho retornou.

Fui até a cozinha e peguei de um armário suspenso o que eu precisava. Acreditava que aquela era a coisa certa a se fazer, embora não pudesse dizer com certeza. Deveria ser. Então percebi que estava descalço. Deveria ter pego algo para não me resfriar. Voltei à sala e calcei os chinelos dele. O velho não iria precisar mais, iria?

Havia uma casinha de madeira com ferramentas no quintal traseiro. Certo dia fora usada como banheiro exterior, nos tempos antigos, mas agora era tão inútil quanto meu avô. Mais tarde precisaria dela, mas a tarefa agora era outra. Sacudi o que retirara do armário e o pus no carpete da sala, após arrastar a mesa de centro para o lado.

Meus braços eram fortes, eu trabalhava com cargas no mercado local, e não tive problemas em levantar o corpo molenga e leve de meu avô. A única coisa era o cheiro, pior que a pele de cobra. Franzi o cenho ao tê-lo em meus braços, senti-lo tão perto de mim. Fora o mais próximo que ficou em todos os anos em que esteve comigo. Estendi-o direitinho no chão, e então abri o saco de lixo, vi que ele caberia sem dificuldades. Juca sempre fora um homem baixo, e parecia que vinha encolhendo com o tempo. Eu, ao contrário, era quase duas vezes o seu tamanho.

A boca do saco preto envolveu seus pés descalços, e depois apenas precisei puxá-lo até a cabeça. Limpei o sangue no bigode e lábios com um guardanapo. Envolvi-o, então, por completo. Sobrou bastante espaço de folga para que eu pudesse amarrar a ponta. Ainda havia a possibilidade do maldito voltar para me atazanar, talvez para estragar todos os meus planos de voltar ao meu país natal. Mas não. Ele não voltaria de qualquer maneira. Não ousaria. Aquele era o seu presente para mim, ele não o tiraria, não seria tão cruel a ponto disso, sei que não.

Então fui para o quintal traseiro. Larguei-o no gramado e fui até o antigo banheiro. A porta era trancada com um cadeado, mas a madeira fora enfraquecida pelas frequentes chuvas da cidade. Não sabia onde o outro guardava a chave, então apenas puxei o ferro até que a madeira entortasse e, por fim, se partisse. Abri e peguei uma pá, ainda havia mais coisas que não precisaria. A pá era o necessário, apenas ela.

Cravei-a na terra ao lado do corpo morto de meu avô. Nunca antes fizera aquilo, mas foi como tirar mel de um pote. A terra estava molhada, e tão molenga quanto o velho. Amontoei o barro ao lado do buraco que se formava para depois poder tapá-lo com facilidade. Andei até o outro lado do corpo e o afastei com o pé, ouvi um baque surdo quando ele atingiu o fundo da terra e algumas gotas de lama pularam para fora. Tapei-o bem e anivelei-o para deixar como o resto do quintal. Era um ponto marrom no meio do verde, mas não importava.

Preparei outro café e encarei o ponto enquanto bebia. Queria, de modo subconsciente, ter certeza de que ele não voltaria, mas a terra permaneceu plana. Preocupei-me à toa. Ele queria me dar um presente mesmo, fiquei feliz por isso. Queria poder agradecê-lo, mas já era tarde.

Liguei para avisar o pessoal necessário, também os disse que já o havia enterrado. Podia voltar para os Estados Unidos naquele mesmo dia. Quero um tempo na instituição para me conformar com a perda? Não, nunca. Esse foi o presente dele para mim, ele não gostaria que eu desperdiçasse um dia sequer a mais no Brasil.

Foram para a casa.

Onde ele está?

No quintal.

Por que?

Pressa.

Desenterrem-no.

Não. Quero ir.

Desenterrem-no. Segurem ele.

Não. Quero ir agora!

Me largue.

Pare com isso.

Por que um saco de lixo?

‘Que sim

Um canivete do bolso

RAAASG

O que é isso é sangue

É me deixa em paz quero ir pra minha família

Segurem ele não deixem que ele se solte

Me larguem seus merdas eu quero ir para a minha família vocês não podem me prender

Levem ele para o carro deixem ele num quarto do orfanato e tomem conta para que não saia

Por favor me leva para o aeroporto quero ir para casa

Esta é a sua casa não é

Não não é não não é não não é quero ir para casa

Levem esse maluco daqui e procurem pela ah esta é a faca

Me deixem

Na verdade levem ele para a delegacia Garcia vai gostar deste caso


Lucas Zanella

No blog posto geralmente textos de opinião assim como também histórias curtas. Aqui você encontrará fantasia, terror e ficção científica. Talvez até mesmo algum drama ocasional.

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