Desastre no meio de uma torrente

Ao meio-dia de uma terça-feira, olhei pela janela do ônibus e notei uma garota correndo desesperada debaixo da chuva ainda mansa. Ela só alcançou o veículo quando ele parou no sinal vermelho. Aos berros, ou o que imagino que tivessem sido berros já que não ouvia nada por conta das janelas sempre cerradas, ela implorou para que o motorista abrisse a porta. As luzes laterais do semáforo diminuíam para indicar que ele logo se esverdearia. Creio que foi apenas quando percebeu que a garota não sairia da frente dos carros que o homem apertou o botão que abria a porta automática.

Ela entrou pingando a chuva ou a suor, a realidade eu não sabia, mas enfim entrou. Tudo isso apenas para se arrastar até um banco perto de mim com sua mochila nas costas e um guarda-chuva recém-fechado na mão. O que ela fez não foi se sentar, mas pegar um finíssimo casaco verde que decerto havia esquecido ali ao desembarcar. Com a chuva a aumentar e o vento a correr mais rápido, era duvidoso que ele iria ajudá-la em muita coisa; teria sido mais sábio esperar o achados ou perdidos do dia seguinte. Talvez fosse o medo do roubo que a tivesse dado coragem e adrenalina o suficiente para correr por quadras e mais quadras atrás do ônibus.

Tão logo pegou o casaco, descansou e respirou por um segundo ou dois e partiu para a cabine do motorista avisar que desceria já na próxima parada. O ponto chegou e o sinal verde aguardava logo em frente. A jovem desceu as escadas escorregadias e lamacentas e ajustou seu casaco e mochila nas costas. Acompanhei-a enquanto o ônibus partia, talvez curioso para saber o final da história. Ela apalpou os bolsos como se em busca de um isqueiro e olhou de volta para o ônibus; seus olhos miúdos engrandeceram ao ponto de vê-los mesmo de longe, já na outra quadra. A garota pôs-se novamente a correr, debaixo da chuva cada vez mais molhada e do vento cada vez mais ventoso.

Olhei para o banco ao qual ela havia ido e percebi pendurado sobre o assento em frente um guarda-chuva cor-de-rosa de bolinhas amarelas. Não parecia novo, mas dava a impressão de ter sido bem cuidado durante toda sua vida, desde a fábrica até o ônibus. Passou pela minha cabeça pegá-lo e jogá-lo à garota que corria tanto quanto antes, mas que agora não contava com um sinal vermelho. Foi apenas um pensamento, pois as janelas impossíveis de abrir e a típica preguiça brasileira me fizeram permanecer sentado. Verifiquei se eu havia pego tudo o que precisava para aquele dia. Talvez até tenha dado uma acenada para a corredora, mas desse detalhe eu não me lembro.

Essa é uma crônica que escrevi após um bom tempo sem escrever crônicas. Espero ainda não ter perdido a manha.


Lucas Zanella

No blog posto geralmente textos de opinião assim como também histórias curtas. Aqui você encontrará fantasia, terror e ficção científica. Talvez até mesmo algum drama ocasional.

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