Despertar dos Sensos

Sensos

Uma garota se levanta da cama e vai para o trabalho.

Um exercício de escrita, que consiste em narrar apenas essas simples ações em duas páginas. Em A4, foram 3, em A5, 5. Apesar de parecer algo chato, acho que a história ficou um tanto quanto boa!

Despertar dos Sensos (fazer o download)

 

Caso prefira ler aqui no blog mesmo:

Era um quartinho comum onde não havia muita coisa. A cama ficava no centro, cama de casal, porém a garota sobre ela estava sozinha, como estivera desde que aconteceu a mudança. A casa ficava logo no centro da cidade, onde carros não paravam de passar um minuto sequer, ou o som diminuía: sempre gritos ou música levemente alta. A moradora escolhera o local justamente por isso, não apenas porque o preço estava muito abaixo do esperado. No começo a mãe pensou que talvez fosse justamente pelo valor, e não queria ver a filha se obrigando a morar num local merda porque não tinha dinheiro.

    “Tome, se quiser pode alugar alguma longe do centro”, ela dissera, estendendo um cheque que a garota nem se deu ao trabalho de olhar. A mãe continuou a não acreditar na sinceridade de suas palavras após a recusa, mas agora entendia, de modo precário, a razão para a filha gostar tanto do lugar. Era o som, justamente!

    As noites sempre foram tão calmas, silenciosas, escuras, e isso a dava um certo medo. Não conseguia dormir sem alguma luz ou alguma fala. Acostumara-se a esperar pelo canto do galo para dormir, porque era quando os carros começavam a trabalhar, mas agora, havia som mesmo às três da manhã, e a luz de alguns outdoors também. Seu horário de sono, miraculosamente, voltou a ser próprio do ser humano. Dormia todo dia à meia-noite e ia ao trabalho às oito horas, embora acordasse às sete para arrumar-se e tomar o café da manhã.

    Quando o despertador tocou, ela já estivera acordada há alguns minutos, com as mãos atrás da cabeça, ainda deitada na cama. Observava o teto com um sorriso no rosto, gostava dos padrões que ele apresentava. Arrastou o ícone no celular para a direita e o som de Bob Dylan parou, mas ela só o fez porque precisava desligar o despertador; em seguida pôs para tocar Hurricane, da sua lista de músicas preferidas.

    Deslizou para fora da cama como por inércia. Gostava do local, não significava que gostava de acordar cedo – novamente, ela era uma humana normal. Inspirou profundamente, enquanto se espreguiçava virada para a janela de venezianas abertas (deixava-a a assim todas as noites). Sentiu um aroma familiar, subiu o vidro e inspirou novamente. Sim, um cheiro gostoso e quentinho lhe chegou às narinas, só podia significar que a Dona Francisca já se preparava para o dia, estava assando pães para a venda. A padaria ficava logo ao lado da casa, mas não obstruía a vista, e a garota pôde notar que não apenas os carros, mas também as pessoas já haviam começado suas rotinas costumeiras.

    Realizou a anotação mental de que deveria comprar pão, talvez o fizesse ainda antes de ir ao trabalho. Aproveitaria e desejaria felicidades para a padeira, acreditava que era o aniversário da Dona Francisca, embora não tivesse tanta certeza. Era confuso, e todo dia sempre havia alguém que fazia aniversário – literalmente!

   Possuía uma assinatura do jornal da cidade, e era bem provável que a nova edição já estivesse aguardando em sua porta. Ela pensou em buscar, mas lembrou-se que também era provável o Afonso, o velho vizinho do outro lado, estar com ele nas mãos naquele momento. Afonso tinha o dinheiro para a assinatura do jornal, mas achava mais prático pegar emprestado o dela no começo da manhã. E ela não reclamava, pouco se importava, tanto porque o homem era um amor de pessoa.

    Mais uma vez, espreguiçou-se, pois sentia a preguiça voltando ao corpo. A roupa de trabalho ela já havia preparado na noite anterior, após o banho, estava sobre a escrivaninha, ao lado do computador. Escreveria mais tarde, se possível, ao voltar do emprego, e também moveria a mesa, pois ela encarava a parede e isso a moça odiava. Mudar-lhe-ia para a frente da janela, onde poderia procurar por uma ajuda no tráfego caso a parte criativa do cérebro a traísse mais uma vez.

    Abotoou a camisa e pôs as calças jeans. O dia estava tão quente que teria ido com uma saia, mas a empresa não permitia roupas muito curtas, nem mesmo os homens podiam usar bermudas. Ela nunca se importou com a política rigorosa da empresa, porque não pretendia ficar lá por muito tempo. O seu primeiro livro já fora aceito por uma editora respeitosa da cidade e seria publicado em seis meses. Teria de aguentar até lá, e então torcer para que seu romance fizesse algum sucesso, pelo menos o suficiente para poder sair se demitir.

    A porta para o banheiro, extremamente branco, estava aberta, e ela o adentrou para escovar os dentes e arrumar o cabelo. Feito isso, observou novamente pela janela do quarto, e olhou para cima dessa vez, checou o céu e o encontrou do jeito que gostava, azul e cheio de nuvens perfeitas, saídas de desenhos animados. Não seria preciso pegar algum casaco ou o guarda-chuva, o tempo bom se aguentaria por pelo menos cinco horas, ela tinha certeza absoluta disso.

    Pôs a mão no trinco que dava para o pátio, era redondo e brevemente enferrujado – a casa não era nova. Sentiu uma picada no cérebro, e pensou estar se esquecendo de alguma coisa. Olhou ao seu redor, olhou para ela mesma. Calçara os tênis – do mesmo modelo, era importante ressaltar após o incidente de 14 de julho – e também pusera um sutiã – isso não era importante ressaltar, mas foi bom ver que não era disso que se esquecia, pois teria sido embaraçoso. Sua pulseira, é claro, não podia sair sem ela. Encontrou-a sobre as teclas do computador, e colocou-a no pulso direito, onde a preferia. Combinava com a roupa que separara anteriormente, então isso era bom.

    A pulseira não era necessariamente importante, mas fora um presente do pai quando ainda era criança. Apenas agora, aos vinte e três anos, podia usá-la sem que ela ficasse desconfortável no braço. Sempre fora muito magra, e por isso o objeto deslizava, fora impossível usá-la durante o ensino médio, tivera muito medo de perdê-la. Era, agora, uma das poucas coisas que ainda a conectava com o velho. Vestida por completo, agora, ela pôs novamente a mão no bonito trinco da porta e a abriu. O jornal estava sobre um plástico sustentável que há pouco o envolvera. Afonso não era visto por parte alguma.

    Colheu o jornal, pôs o papel na lata de lixo que era indicado, ficava diretamente à frente da sua casa, e o pôs sob o braço enquanto tirava a carteira da calça para ver o quanto de dinheiro tinha. Compraria seis pães franceses para o café da manhã do resto da semana. O dia continuava bonito, e ela reconheceu alguns rostos sorridentes. Sorriu de volta para eles. Faltavam seis meses, ela precisava aguentar o trabalho até lá, e sabia que conseguiria.


Lucas Zanella

No blog posto geralmente textos de opinião assim como também histórias curtas. Aqui você encontrará fantasia, terror e ficção científica. Talvez até mesmo algum drama ocasional.

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