Dois Gritos Vindos do Sótão

No meio de um dia solitário, o protagonista ouve um ruído vindo do sótão na casa dos seus falecidos pais. Isso o incomoda a ponto de levá-lo ao medo, de perder a coragem de subir e ver o que acontece.

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Foi na hora do chá da tarde que escutei o primeiro barulho vindo daquele cômodo esquecido. Estava sozinho em casa, ninguém testemunhou o som nem reparou em minha expressão de dúvida ao olhar em direção ao local.

Era um lugar inóspito, deixado para tornar-se o reinado de ratos e aranhas. Quando nos mudamos para a casa, o sótão fora usado como um armazém, mas desde a saída de minha irmã para a universidade, colocamos todas as caixas repletas de conteúdos tão esquecidos quanto o cômodo no quarto dela. Um quarto pequeno, digno de uma irmã caçula, mas que serviu seu novo propósito tão bem quanto servira o antigo. Quando o pai morreu, não vimos serventia em continuar a estocar caixas sobre caixas de tralhas da guerra, de vidas passadas, de amores que até o leito de morte ele já havia esquecido.

Em dia outro, quando já me esquecera do primeiro, o barulho tornou a andar pelo sótão. Não estava sozinho, minha companhia era sra. Delgado, vizinha e amiga íntima de minha falecida mãe. Pensei em desculpar-me pelo incômodo e dizer qualquer coisa sobre serem os ratos gordos que me faziam companhia, mas mal abrira a boca e a senhora já gritara para que eu falasse mais alto. Com a cabeça do jeito que estava, esqueci-me da sua terrível falta de audição desde o conhecido acidente de carro que tragicamente matara seu marido.

Ela agradeceu pelo chá e disse qualquer coisa como uma despedida, embora tivesse permanecido sentada por tempo o suficiente para que eu me indagasse dos seus planos. Devaneando ainda mais, perguntei-me como vivia tão sozinha naquela casa tão pequena para uma mulher que, quando sentada naquele antigo sofá da mãe, parecia enorme.

São ossos largos”, ouvi a senhora uma vez comentar, “foi o doutor quem disse”, e repetia isso de vez em quando para fazer os outros acreditarem. No fim das contas, foram seus ossos largos que a salvaram de uma morte certeira: o franzino marido teve o crânio fraturado, mas, no carro, senhora Delgado permaneceu no lugar, não moveu um músculo sequer.

Por fim, levantou-se num gracioso movimento cuja graciosidade só era perdida por conta da lentidão. Aguardei-a com paciência, tempo era o que eu mais tinha durante os últimos anos de ócio naquela casa cheia de histórias.

Ela agradeceu pelo chá novamente, perguntou-me de qual planta era. Disse-lhe que era uma mistura de ervas e que depois lhe passaria a receita. Ela sorriu cansada, esquecendo-se de que eu sempre lhe dizia isso, mas nunca me lembrava de fazê-lo. Com as costas arqueadas, a senhora arrastou-se da sala de chá para a porta e observou uma foto da família.

Que bela mulher”, ela disse, então virou-se e voltou para sua própria casa. Acompanhei-a com os olhos, depois voltei-os para a fotografia. Minha irmã não havia que dez ou doze anos e nossa mãe era a única outra mulher no quadro. Julguei estranho aquele comentário, não por conta do seu conteúdo, mas do seu contexto. Nunca antes ela havia falado de minha mãe ou dito algo sobre seu passar; era de se dizer que não ficara sabendo do que acontecera.

Ao fazer o jantar, anotei na lista ingredientes que faltavam e passei os olhos pelo calendário. Talvez fosse isso o que tivesse levado a mente da senhora Delgado até minha mãe: fazia dois anos desde sua morte; dois anos desde que perdi o sentido do que fazer do acordar ao dormir.

Minha irmã vem visitar-me durante as festas de fim de ano, embora demore-se apenas o suficiente para dizer que aparecera. Ela sabe que passei toda minha vida a cuidar dos nossos pais, uma tarefa que não me trouxe experiência para o campo de trabalho. Agora, após a morte dos dois, não tenho conhecimento em campo nenhum para conseguir um emprego. Todo mês ela me envia pelo correio uma boa quantia de dinheiro, parte do que consegue no seu emprego na cidade, seja ele qual for.

Passo, então, meus dias em casa, regando as flores da mãe, fazendo comida, bebendo o chá da tarde, recebendo algumas poucas visitas e limpando os cômodos, mas nunca o sótão. À noite voltaram os estranhos ruídos que de lá vêm. Tentei ignorar o barulho por medo e preguiça de ir ao cômodo. Li um capítulo de Dostoiévski e um conto de Tcheckov e consegui dormir. Os barulhos não haviam cessado, eu meramente os surpassara.

No novo dia, acordei num silêncio mortal que me perturbou ao ponto de olhar à volta em busca de um par de olhos. Demorei-me a perceber que era apenas a falta de sons vindos do sótão o que me deixara naquele estado. Quando desperto, já estava melhor.

Ainda em pijamas, preparei um café da manhã e sentei-me à mesa. Pus-me a ler o jornal do dia anterior, que não tivera tempo de folhear. À tarde li na sala de estar, no sofá ao lado da estante de livros. Escolhi outro russo ou francês, não prestara atenção. Notei, porém, a ausência de um grosso livro cujo título e aparência me fugiram da memória.

Ah, como andava esquecido naqueles tempos! Era difícil dizer a razão; sempre cri que o pai fosse alguém afligido por aquela temível doença que nos abraça na velha idade, mas o homem morrera antes de qualquer confirmação médica ter sido feita. Seria ela hereditária? Minha estante possuía literatura e qualquer coisa sobre veículos clássicos, deixados pelo pai, mas nela não havia nada de medicina. Era uma opção falar com o médico da cidade, embora fosse um homem tão ocupado com outros velhos moradores que certamente não teria tempo para alguém tão jovem quanto eu; antes me chamaria de ajudante do que me trataria. De todo modo, nunca tive boas experiências com médicos, prefiro morrer ignorante a perecer sábio da minha condição moribunda.

Foram médicos que apareceram quando minha mãe morrera. Não fossem eles, passaríamos ainda nosso dia a conversar sobre literatura e assuntos da cidade enquanto eu lia em voz alta o jornal para que ela soubesse do que acontecia. O dia em que tudo acontecera, isso sim era algo que nunca me esqueceria. Minha mãe morrera de um ataque cardíaco ou doença semelhante, não sei dizer. Embora o médico me tenha informado, não prestei atenção nas suas palavras. Entrei em choque; apesar de meu único emprego ter sido cuidar dos dois, nunca me passou pela cabeça que algum dia teria de encarar uma situação daquelas sozinho.

Meu pai morrera em paz, durante o sono, como a mãe dissera, e embora eu tenha também me enfraquecido com o acontecimento, nunca senti seu real efeito por conta da presença materna ao lado. De fato, não me recordo do que fiz naquela ocasião, não sei se fora eu ou a mãe quem ligara para o hospital. Posso muito bem ter me sentado no sofá para esperar o dia passar ou ajudado de todo modo possível, mas dizer a verdade é algo que me é impossível.

Passaram-se longos minutos de perpétua agonia quando encontrei minha mãe caída no chão, sem se mexer. De algum modo, fiz a ligação para o hospital e em pouco tempo lá estavam eles. Apenas então consegui tranquilizar-me um pouco, embora o terrível sentimento, o gosto ruim que a perda me deixou na boca, ainda persista.

A senhora Delgado não passou por aqui na hora do chá. Havia um veículo em frente a sua casa, talvez uma visita de alguma das filhas. Talvez tenha me ressentido por ela não a ter trazido até a casa para que pudéssemos todos conversar reunidos. Vizinhos, conhecíamo-nos durante a juventude, mas a vida adulta separou-nos todos; um reencontro cairia bem após tanto tempo. Em todo caso, no fim do dia preparei-me normalmente para a cama e aconcheguei-me nos lençóis.

O barulho, acredito, começou na mesma hora em que começara no dia anterior. Cheguei a levantar-me da cama e a pegar uma luz para que pudesse ver o caminho até o sótão; havia uma corda para puxar que mostraria uma escada até o cômodo. Toquei essa corda, mas tão logo soltei-a. A pequena balançou até que novamente se imobilizou; não vi quando aconteceu, já havia retornado à cama. Aqueles ratos, se eram ratos, haviam acovardado-me.

A mãe sempre reclamara de raposas com o pai. Ela havia uma infinidade de bichos no seu repertório, mas a raposa era o animal mais recorrente. Certa vez alguns barulhos tão parecidos com esses fizeram-na acordar na noite, ela cutucou meu pai e disse-lhe para olhar o que era.

Ele subiu ao sótão, mas depois retornou dizendo que o bicho estava caminhando no teto da casa. Do sótão o pai trouxera uma espingarda já carregada, guardava-a lá para momentos como esse e outros. Ele abriu a porta da casa e saiu para a noite gelada. Seguimo-lo mãe e filho. Ele subiu uma escada lateral para o teto da casa e lá persistiu por um longo tempo, longo o suficiente para que minha mãe e eu nos entreolhássemos.

Por fim, ouvimos um estouro que nos apavorou. Apesar desse susto inicial, não demoramos para entender nele o som da espingarda. Esperamos um movimento, os olhos grudados ora na escada, ora na borda do teto.

Algo se lançou ao chão. Nós dois corremos para dentro da casa e aguardamos. O pai voltou tempos depois mostrando seu prêmio: uma raposa morta que segurava pela cauda peluda. Jogou-a na lixeira e no retorno subiu ao sótão para descer sem a espingarda, talvez tomando tempo o suficiente para que pudesse recarregar a arma. Foi ao banheiro para limpar-se e voltou a dormir, algumas partes do pijama ainda sujas do exterior.

Nessa noite, observei meus calçados cujas solas enlamaçadas me chamaram tanta atenção. Foi olhando-os que peguei no sono. Não lembro com o que sonhei, se foi com lama, raposa ou espingarda. Talvez tenha sido o resquício da lembrança dessa noite raposenta o que me fez ignorar os ruídos infernais e pegar no sono, embora não sem acordar de súbito no dia seguinte.

Sentado na cama, tinha os ouvidos apurados em busca do som que me acordara. Foram sons do sótão ou sons da cidade? Tiros policiais ou conversas entre vizinhas? Levantei-me e preparei um café sem saber da resposta. Contemplei um pouco mais sobre ela durante o passar da manteiga no pão, mas até o primeiro gole da xícara quente o assunto já saíra da cabeça.

Afastando a cortina da sala com os dedos, fazendo o mínimo movimento possível, percebi que o carro ainda estava logo em frente a casa de senhora Delgado. Certo era que eu novamente passaria uma tarde solitária naquela casa que dia após dia parecia maior para uma única pessoa. Porém, é claro, não me atreveria a vendê-la ou a mudar-me, mesmo pensar num ato do tipo era algo próximo a um pecado que me lançaria às chamas do inferno para arder pela eternidade.

Havia uma grossa Bíblia de lombada preta e letras douradas ao lado do misterioso vão da estante. Sem aquele livro final que completava a prateleira, era ela quem suportava como um serre-livre o resto que ia do menos ao mais importante.

O dia arrastou-se numa demora sem fim, mas quando a noite chegou acercou-me a sensação de rapidez infinita, como se as horas da tarde tivessem passado em velocidade maior do que o comum. Essa velocidade se traduziu para o movimento da Terra, pois ao virar-me pra retornar à sala tudo girou e tive medo de que seria jogado para o chão ou bater-me-ia nas paredes.

Creio ter ido aos tropeços ao sofá para sentar-me. Era recém o final da tarde quando fechei os olhos para deixar de ver o teto e as paredes dançarem; o sol ainda estava no céu, embora de saída. Ao acordar, ele já havia sumido e a negritude na qual estava banhada a sala fez-me pensar que a lua também nos havia deixado.

Afastei novamente a cortina, procurei pela lua como um engasgado por ajuda, mas não a encontrei. Um medo vindo das entranhas se apossou de mim a ponto de arrepiar-me os pelos e formigar-me as pernas. Disse a mim mesmo quão estúpido era aquele receio; “a lua lá está, apenas não posso vê-la”. Mas era justamente essa não visão que me apreendia, que pressionava meu peito e trancava minha garganta.

Saí da janela por conta da falta de ar. Se continuasse ali eu morreria, pois procurava sem respirar o globo branco que habitava os céus. Pensei no sótão. Veio-me à mente apenas por conta da janela que sabia que lá havia. Larga, durante a infância permitia-me observar todo o longo bairro. Tentei puxar meus pensamentos desse lugar e assunto, mas apossou-me a correta certeza de que com ela eu sanaria a inquietude. A lua me esperava, escondendo-se ou descansando numa parte diferente do céu daquela noite.

Busquei o relógio da família na parede, ele mostrou-me algo que de fato não me agradou. A tontura, a falta de lua e o medo de então eram nada em comparação ao que senti ao ver o ponteiro marcar três horas da manhã. Mas é claro, pensei, como não havia percebido isso ao notar a rua deserta e as casas sem janelas acesas?

Naquele momento senti-me como se estivesse sozinho não apenas na casa na qual cresci, mas também em todo o bairro; até mais: sentia-me como se fosse o único ser vivente em toda a face da Terra. Olhei para o teto procurando ouvir qualquer som dos ratos, mas eles ainda descansavam, embora eu soubesse que assim seria por apenas breve tempo.

Dormira no final da tarde e começo da noite: as luzes, todas apagadas, mostraram-se tão distantes dos meus dedos quanto Paris do meu corpo. Após dedilhar o ar por um tempo tão longo ou tão curto, desafixei minhas estatuosas pernas do chão e pus-me a sorrateiramente andar pelas sombras até meu quarto. Não liguei luz alguma no caminho, sempre mantendo a cabeça reta e o objetivo em mente. Tentei ao máximo não me distrair com os sons que apareciam no meu atrás, julgando-os obra do vento que entrava pelas janelas fechadas ou das pessoas que não habitavam a casa.

Com meu coração saindo pela boca, com minhas pernas já sendo fardos tão pesados de erguer, cheguei ao quarto e pus-me debaixo das cobertas. Agarrei-as com a força de mil homens, agarrei-as tanto que tinha certeza de que haviam rasgado. Meus olhos eu deixava fixos na porta entreaberta, sempre esperando que ela se movimentasse um milímetro sequer. E seria nesse milímetro empurrado pelo vento que eu gritaria e morreria apenas por conta do pavor. Um único ruído fora do comum me poria num estado indescritível que prefiro não imaginar.

Talvez a casa soubesse do que eu sentia, pois foi algo maior do que um ruído aquilo que produziu para mim. No meio do silêncio ensurdecedor, percorreu pelos corredores e chegou até os cômodos, para preenchê-los, o som de dois gritos, um seguido do outro em tão curto espaço de tempo. Não foram gritos breves seguidos pelo silêncio, mas dois longos e demorados gemidos guturais e aterrorizadores que persistiram mesmo após já terem finalizado.

O som instalou-se nas minhas orelhas e persistiu em não sair. Ouvia-os mesmo um ou mil minutos após já terem finalizado. Como nos enganamos com nossos próprios sentimentos: tivera a certeza de que meu coração não aguentaria tamanho susto, mas ainda respirava, embora paralisado pelo mais puro sentimento de terror que eu jamais vivera e que pessoa nenhuma no mundo jamais viveria.

Então subi ao sótão. Aquele medo era algo que tinha de acabar. Não mais me amedrontaria morar na minha própria casa. A corda que baixava a escada tremia por conta das vibrações do piso superior. Puxei-a e aguardei, olhei para o buraco negro que esperava para me engolir. Meus olhos tanto olhavam a borda como pareciam olhar para seu além, sempre na espera de algum monstro que se jogasse sobre mim. Tudo o que ouvi foi um aumento naquele som que já me era familiar; agora não havia barreiras entre nós dois. Se ratos, já teriam caído pela escada em direção à luz tênue do meu abajur, que passava pela porta e invadia um pouco o corredor e o buraco.

Fiquei lá tempo o suficiente para que meus olhos se acostumassem. As pupilas se dilataram e esperavam para abrir-se ainda mais mediante a entrada na escuridão. Pus o primeiro pé na escada e tirei o outro do chão. Ele persistiu no ar por tempo antes de se assentar no degrau superior.

No sótão, estranhei a dimensão de altura, mas logo me veio o entendimento. Passara tão pouco tempo lá desde minha infância que o lugar me parecera maior, mais espaçoso. Agora, já um homem adulto, sentia os fios do cabelo encostarem no teto.

Alguma luz entrava pela janela, tão tênue quanto a do abajur que já ficara para trás. Olhei através dela antes de pôr os olhos no restante do cômodo. Senti o coração pular uma batida e a pele e corpo todo gelarem ao constatar a ausência de uma lua naquele céu noturno. Quão estranho ele ficava! Quão amedrontador! Não há nada que nos aterrorize mais do que o comum alterado.

Num passo em falso, pareci ter chutado qualquer coisa leve. O som pareceu-me com o de uma folha e, de fato, consegui distinguir uma e outra. A cada passo que dava o som mudava, ora eu pisava sobre a madeira, ora sobre uma folha única, ora sobre um grosso degrau de papel. Encontrei seu lugar de origem num pedestal alto que portava um ainda tão grosso e sólido livro cujo nome não me atrevera a ler.

Em frente a esse pedestal ficava, no chão, algo que não consegui identificar. Aproximei-me e ainda assim não compreendia o que via. A janela iluminava apenas tão brevemente aquela porção do sótão.

Contra todos os meus julgamentos, contra a própria razão do Homem, preparei minhas mãos para pegar naquele objeto de tão estranha forma e que tanto me fascinava. Não estava lá apenas ele, mas era cercado de uma grande porção de pedaços do que parecia ser madeira molhada. Prestei atenção à textura e ao aroma. Era tão difícil trazer à mente qualquer coisa que se assemelhasse àquilo.

Dedilhei então a maior parte de todas, mais molhada e mais grossa. Havia vãos, cavidades, na superfície esférica. Pus-me de joelhos e forcei as pernas trêmulas mas decididas a se levantarem. Saindo da sombra adicional projetada pelo pedestal, o objeto entrou na claridade e assim pareceu se acordar.

Acordou-se com um novo grito, tão longo e agudo quanto o anterior. Possuía minhas mãos sobre o objeto, senti uma das cavidades se abrirem para a realização da tarefa. Apenas então, após o retorno das minhas faculdades mentais restantes, foi que percebi que segurava uma sangrenta cabeça humana. Tinha a aparência de fazer parte de um feto, mas em um tamanho ilógico. Foi essa mistura do conhecido com o desconhecido que me trouxe uma luz ao que ocorria.

Larguei a cabeça no chão, onde caiu junto daquilo que agora tão claramente reconhecia como sendo ossos humanos. Observei as coisas enquanto caminhava de costas, não tenho como dizer se foi por medo do que poderia estar atrás de mim ou do que poderia acontecer caso tirasse meus olhos daqueles objetos.

Esbarrei no pedestal, que caiu no chão assim como eu caí sobre ele. Bati a cabeça e pensei ter quebrado qualquer coisa por conta de um barulho aterrorizante. Mas esse barulho veio de algo que me pôs ainda mais terror: reconheci o livro caído ao meu lado, não havia como não o fazer, seu título e autor estavam escritos em letras garrafais a poucos centímetros do meu rosto.

Era o livro faltante da estante da sala de estar, o livro cuja existência havia fugido da minha mente, e percebi quão boa fora a razão para isso ter acontecido. Preferia nunca ter me recordado, mas preferia ainda mais nunca ter feito aquilo que me trouxe a desmemória.

Ó, mãe, quantos perdões devo pedir para que consiga me perdoar? Sinto tua falta, mas como pude fazer aquilo, como pude pegar o livro da estante e trazê-lo para o sótão, como pude pegar a pá e…? Quão desesperado eu estava? Quão sozinho, quão maluco? Como queria saber essas respostas para que pudesse nunca mais entrar nesse estado.

Acima de tudo, como pude esquecer que cometera tamanho pecado ao tentar interferir com as leis que regem nossa natureza? Procurava lembrar-me também de onde havia saído aquele maldito livro escrito por aquele maldito árabe louco, mas nada não me vinha à cabeça. Se fora eu quem o comprara ou se fora um demônio quem o colocara na minha estante, isso era algo que nunca conseguiria dizer, mas isso já não tinha mais importância. O que eu fizera já havia sido feito, apenas cabia agora a mim acabar com aquilo.

Peguei o único outro objeto no sótão que me era conhecido e verifiquei se ele ainda estava carregado. Arrepiei-me com a cena que representei naquele sótão: um filho a apontar a espingarda do pai para a ossada do corpo recém-desenterrado da mãe. Poderia jurar que, antes de apertar o gatilho, vi os ossos em movimento, para juntarem-se um pouco mais. Teriam sido esses os barulhos que ouvira dos andares inferiores, o andar dos ossos, o remontar do quebra-cabeça anatômico? Era assim que aquele temível e terrível livro pretendia fazer reviver uma mãe que então andaria deformada, como uma cápsula vazia retirada do seu tão merecido descanso?

Pedi para que os deuses tivessem compreensão de que a culpa da transgressão da lei natural não fora dela, mas minha. Se tivessem que jogar alguém no poço de lava e sangue para ser cutucado pelos espetos afiados do Diabo, que então fosse eu. Pelo amor dos céus, que fosse eu. Matar-me-ia duas vezes saber que outra pessoa fora afligida por aquela estupidez.

O som da espingarda preencheu o cômodo, a noite, o planeta que eu habitava sozinho. O conteúdo cerebral, a pele se jogou na parede traseira. Alguns dos ossos foram jogados para o outro lado do sótão por conta da força do tiro.

Permaneci com a espingarda na mão sem fazer nada, contemplando sem pensar e sem ver o que eu havia feito. Depois virei-a para o livro e atirei, mesmo de um certo modo sabendo que aquilo de nada adiantaria. Era algo que eu precisava fazer, era a expressão máxima do meu sentimento de ódio para com aquele amontoado de papéis amaldiçoados.

Larguei a espingarda lá e desci correndo. Esse episódio aconteceu há mais de uma semana e ainda sinto suas consequências. Naquela noite tão silenciosa, com aquela arma tão sonora… eu tinha certeza de que alguém ouvira o barulho, o tiro, o grito. Era certo que alguém chamara a polícia, eu sabia que ela estava apenas esperando para me pegar. Eu sabia que verificaram o local de descanso de minha mãe e encontraram um caixão vazio sob uma terra remexida, eu sabia. Agora apenas aguardava, mas eles não vinham.

Senhora Delgado nunca mais apareceu por aqui, sempre com aquele carro em frente à casa. Hoje pensei que eles viriam aqui, chegaram reforços vindos nos seus carros pretos e irreconhecíveis. Eram homens em vestimenta formal, como detetives ou uma agência superior à polícia municipal.

Ainda assim, eles não vieram. Eu os observava através da cortina, afastando-a com os dedos do modo mais discreto que me era possível, embora mesmo isso não fosse o suficiente para pegá-los de surpresa; não se espia um espião. Um deles me pegara vigiando-os e lançou-me um olhar amedrontador. Não veio até aqui, não me dirigiu uma palavra sequer. Escondi-me ao notar aquele rosto raivoso e ao voltar para a cortina ele já havia desaparecido.

Escrevo meu relato para mostrar-lhes que vou apenas porque até agora não me vieram pegar. Eu esperei, esperei até o fim do mundo e mais um pouco, com medo do que me aconteceria, claro, pois eu ignorava o funcionamento das leis. Mas esperei mesmo assim. Agora estou cansado de esperar, e embora vá todo dia ao sótão verificar o barulho de ratos que ouço noturnamente e saiba que não há nada além do já conhecido e estático estrago, continuo a ouvir o ruído que não me permite dormir. Já estou cansado de ficar acordado ouvindo os sons que são apenas sons, está na hora do meu descanso. Pelo amor de Deus, já não aguento mais.


Lucas Zanella

No blog posto geralmente textos de opinião assim como também histórias curtas. Aqui você encontrará fantasia, terror e ficção científica. Talvez até mesmo algum drama ocasional.

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