Esgoto

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Esgoto (PDF)

Entrando no banheiro, o carrinho com seus equipamentos de trabalho entalou na porta. Não havia pessoa alguma no prédio àquela hora, então o faxineiro não se deu ao trabalho de desentupir a porta. Pegou o esfregão e molhou-o na água ensaboada. Houve um barulho de sucção no mergulho, então o som das gotas caindo em conjunto no chão de linóleo branco do banheiro.

Os sons de vai-vêm foram a única coisa possível de ser ouvida em todo o primeiro andar. Sem dúvidas seria possível ouvi-los do segundo também. No fim, o faxineiro aguardou um segundo para que o chão secasse. Checou suas botas e certificou-se de que estavam limpas para pisar no banheiro agora tinindo.

Já com a esponja e sabão na mão, aproximou-se do mármore que guardava as pias inúteis do banheiro masculino. Estavam tão limpas quanto no dia anterior, mas isso não o impediu de limpá-las. Esfregou tanto o mármore da pia quanto a própria torneira. Então abriu-a e enxaguou, lavou suas mãos por dois minutos antes de passar para a próxima. O mesmo ritual, e lavou a mão por dois minutos para livrar-se de quaisquer germes que poderiam estar apenas no aguardo do contato com um ser não cuidadoso.

Quando enfim terminou de lavar a última pia, suas mãos ardiam. Não pela limpeza costumeira, mas sim pelas lavagens realizadas para a retirada das bactérias. Abriu a torneira e pôs as mãos vermelhas sob a água fria para lavar uma última vez antes de partir para os vasos. O sabão escorria por entre os dedos, se aconchegava temporariamente sob as unhas malcuidadas e então era esfregado pela palma, pelo pulso, até mesmo pelo braço até o cotovelo. A água era usada para enxaguar a pele limpa, tornava-se ainda mais fria com a brisa de julho que passava pela janelinha na parede.

Ajoelhado diante do vaso, o faxineiro esfregou seu interior com cuidado enquanto uma expressão do mais puro asco escorria pelo seu rosto prematuramente enrugado. A água do vaso sanitário por vezes saltava apenas um pouco, uma gota ou duas, quando o faxineiro mergulhava a esponja nela para então passá-la novamente na porcelana interior. No fim, deu descarga mais uma vez e foi até a pia, o cheiro do local ainda impregnado nos pelos cinzentos dentro do seu nariz.

Foram cinco minutos até que ele estivesse novamente confortável e se sentisse limpo o suficiente para começar a trabalhar no outro vaso.

As portas para os sanitários, abertas. O som da água correndo nos canos ainda podia ser ouvido. O faxineiro estava encostado no mármore da pia respirando pesadamente. Encarava os boxes como se fossem uma missão cumprida com dificuldade, um dragão finalmente morto em tempos medievais.

Foi até a porta pegar um pano no carrinho preso e voltou para as pias. Molhou o pano e começou a passá-lo no vidro longo que cobria toda a parede. As mãos continuavam a se sentirem sujas, a pele parecia suja. Seu interior da carne dava a impressão de ser defeituoso, impuro. A cada momento o faxineiro pensava em parar e lavar as mãos mais uma vez, mas se controlava o melhor que podia.

Observou pelo espelho que algo acontecia num dos boxes. A água do vaso começava a transbordar a porcelana, como se tivesse ficado entupido sem que alguém sequer o tivesse tocado. O líquido escorria até encontrar o piso de linóleo, então se expandia aos poucos, de gota em gota. O faxineiro nada fez pois tampouco sabia qual era a razão para aquele acontecimento. Ele encarou com fascínio e desgosto enquanto a água avançava, saindo já do boxe do meio e avançando para os de ambos os lados. Também ela escorria para fora dos limites.

Algo como uma mão saiu para fora do vaso e agarrou-se na borda, tentando se levantar ainda mais. Vendo-a com atenção, o faxineiro notou que era uma mão marrom, mas não uma simples mão de negro. Era grossa e parcialmente líquida, derretida. Gotas caíam no chão para se misturarem com a água transparente.

Uma espécie de criatura se elevava das profundezas e saía do interior da porcelana. Pôs um de seus pés gosmentos no chão branco, deixando não apenas a marca de uma pegada mas também mais gotas ao redor desta. Foi então que o terrível cheiro chegou ao faxineiro, que queria cobrir a boca e o nariz, mas estava completamente petrificado. Seus olhos, arregalados. Os pelos na nuca e nos braços, eriçados. O coração palpitava como não o fazia havia anos.

A criatura humanoide não tinha um rosto aparente, apenas uma cabeça plana. Ela continuou a andar na direção do homem, seus passos não apenas ocasionando um salto no coração do outro como também fazendo com que água sanitária e merda fossem respingadas para as paredes. A gosma malcheirosa continuava a cair, escorrendo pelas pernas ou pelo braço e dedos da criatura. Formava uma gota grande, então se espatifava no chão liso do banheiro.

Sentindo o estômago revirar, o faxineiro acompanhou o trajeto lento do monstro que o observava atento, tendo seu destino já definido. Ele esticou a mão para o rosto do homem, seu rosto invisível parecia encará-lo ainda mais fortemente. Sem que conseguisse mover um centímetro sequer, o faxineiro sentiu quando a criatura enfiou seus dedos em sua boca. Como se moldável, o pulso encolheu por pouco e entrou também.

A gosma sólida escorria-lhe pela garganta, e a cabeça da criatura, tão perto da sua quanto possível, o observava sem o ver realmente. O cheiro continuava a subir pelo nariz do faxineiro, mas pouca diferença fazia pois seu intestino já se revirava, recusando o que o monstro insistia em socar-lhe dentro. O faxineiro encarava aquela cabeça sem saber para onde olhar exatamente, não havia olhos os quais temia, era apenas aquela presença. A coisa.

Sentiu que com a outra mão a criatura o envolvia, o abraçava. Seu uniforme estava sujo daquela nojeira marrom, assim como os cantos da sua boca, seu cabelo, seu banheiro recentemente limpo. As mãos do homem ainda permaneciam paralisadas ao lado do corpo, mas com grande força ele conseguiu movimentá-las e abrir as palmas para empurrar a criatura. Era pesada, grande, nem mesmo a força de mil homens a derrubaria. Mas a criatura não queria mais nada. Lentamente retirou seu braço intacto do estômago do faxineiro, que sentiu os dedos grossos se arrastarem pela garganta até enfim emergirem pela boca, deixando traços da gosma presos nos dentes.

Então, explodiu. Explodiu e o banheiro todo se tornou o abrigo daquela coisa, pois ela estava por toda a parte, do teto ao chão, das paredes aos boxes, nas pias e no espelho.

Enfim o homem vomitou, e foi como se todo o seu interior estivesse saindo junto. Seria bem melhor se assim fosse. Era a única maneira de se tornar realmente limpo após aquele terrível episódio.


Lucas Zanella

No blog posto geralmente textos de opinião assim como também histórias curtas. Aqui você encontrará fantasia, terror e ficção científica. Talvez até mesmo algum drama ocasional.

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