Folhas de cristal

Kobo_Mini_35435568_01

Quando pessimistas e antiquados pensam no futuro, o que lhes vêm à mente é uma visão meio distópica de milhares de pessoas a andar e encarar telas pequenas de seus aparelhos eletrônicos, e essa também é a visão que eu tenho. Não apenas para o futuro, mas também para o presente. Minha mãe não precisa ser da Geração Y para volta e meia pegar o smartphone e começar a jogar algum desses jogos puzzle gratuitos e viciantes. Realmente, ela usa mais o celular do que eu, bem como tem mais horas jogadas de Paciência Spider do que eu tenho de todos os meus jogos na Steam.

A onda dos e-readers não pegou no Brasil, mas creio que não seja incomum encontrar estudantes e outros a ler algum livro de metal enquanto descansam sob a copa de uma árvore ou enquanto estão no metrô a caminho do trabalho. É difícil para mim dizer o que penso sobre esse novo meio de leitura, sendo que não possuo algo mesmo remotamente semelhante a um e-reader. O que posso afirmar é que odeio ler um PDF no computador, e sempre prefiro o livro físico, mas também já li metade de O Bebê de Rosemary encarando a tela do meu celular (é bem verdade que parei de ler para comprar o livro e lê-lo no meio físico, coisa que ainda não fiz).

Se consegui ler mais no celular do que consigo ler em um monitor grande como um notebook (ou tablet), isso deve ser um bom indício de que me adaptaria sem muitas dificuldades ao Brasil tecnológico em que árvores crescem e não são cortadas. Concordo que é bem mais fácil ler A Coisa, do Stephen King, um livro de 1100 páginas num dispositivo de 200 gramas, mas também penso que seria esquisito. Eu quero pegar o calhamaço nas minhas mãos e ficar com as pernas doloridas porque apoiei a lombada da merda bem no meu osso mais sensível.

A parte mais importante da leitura é a história, claro, mas também é o objeto físico. São duas sensações completamente distintas escolher um livro para reler numa estante real cheia de marca-páginas que acabou colecionando ao longo da vida de escolher um livro apenas deslizando o dedo na tela de um aparelho.

Resolvi escrever um pouco sobre o assunto porque descobri que esse era o tema da redação da UFRGS e me repudiei por não ter me inscrito no vestibular para poder escrevê-lo de verdade, mas a quem estou enganando? Para se escrever uma redação, deve-se seguir uma fórmula, e se tem algo que todos os meus professores de física sabem de cor e salteado é que essa é uma das coisas que eu não sei fazer. Muitos, ao saberem que sou “escritor” e publico minhas escritas online dizem que devo ser um dos alunos nota mil da redação, o que é completamente errado pensar. Ficção e texto argumentativo são coisas diferentes, e sinto um certo prazer em dizer para mim mesmo que escrevo melhor que esses tais alunos mesmo que nunca tenha tirado algo próximo de 600 pontos nos três anos em que prestei o ENEM.

Deus do céu, eu nem mesmo sei identificar uma locução adverbial de uma adjetiva e inscrevi-me para Letras no SISU (coisa que não tenho esperanças de passar).

kobo_wifi_4

Agora, o que realmente muda quando passarmos do papel para o transistor? O leitor, certamente, permanecerá o mesmo ou então ao grupo mais serão acrescentados; o escritor, idem. O impacto ambiental que uma transição como essa faria seria infinitamente maior do que o impacto literário. A história permanece a mesma ou então segue sua evolução natural, seja estrutural ou gramatical.

Verdade seja dita, o leitor que é leitor não parará de ler apenas porque não pode mais colecionar traças nas suas estantes poeirentas. Se quer continuar lendo, ele comprará um e-reader e lerá até seus olhos sangrarem tinta binária. Quando se ama, segue-se. O apaixonado pode se mudar de Porto Alegre para o Rio para seguir sua noiva, e o mesmo acontece com aqueles que dividem a cama com seus autores favoritos. Se o leitor ama ler, não se importa no lugar em que o faz, importa-se apenas com a história e seus personagens.


Lucas Zanella

No blog posto geralmente textos de opinião assim como também histórias curtas. Aqui você encontrará fantasia, terror e ficção científica. Talvez até mesmo algum drama ocasional.

One Comment

  1. Hahaha gostei da parte em que você escreve ” …até seus olhos sangrarem tinta binária.”
    Concordo contigo, o leitor não vai parar de ler, quem é apaixonado por leitura se adapta, não deixaremos de ter nossos livros, mas também teremos estes.

Comente a postagem! :)