Folhas de Verão

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Parado em frente à casa, Álvaro esperava. As mãos estavam fechadas no couro que circulava o volante. O punho estava cerrado e ele já sentia a ardência causada pelo atrito de pele com couro. Ainda que sua mão pegasse fogo, não pararia. Era aquilo ou algo pior.

Chegara ao ponto do remorso. Por que diabos pegara o carro na garagem e dirigira por duas horas até a casa do editor? Todo esse tempo de congestionamento deveria tê-lo feito repensar nas suas ações, mas não o fez. O tempo que teve para refletir apenas fez com que, assim que precisou novamente desligar o carro pelo engarrafamento, pegasse o revólver no porta-luvas e checasse as balas.

Aproveitou para também tirar o pó que estava sobre o metal. Pegara-o na pressa e foi apenas isso, nem mesmo se dera ao trabalho de contar as balas ou ainda de ver se a merda funcionava. Mas ele tinha certeza de que na hora tudo daria certo. Se a coisa não disparasse, bater-lhe-ia na cabeça do editor até que a porra do crânio aparecesse. Até que o cérebro gosmento saísse para fora e as gotas do suco humano começassem cair no chão, mesclando-se com o sangue vermelhinho.

Álvaro desafivelou o cinto e ajustou o banco do motorista. Olhou para o do carona e lá, sentadinho como se fosse uma pessoa, estava o livro. Apenas lhe faltava o cinto protetor. O título, o homem conhecia, mas não o nome do autor. Lembrava-se do dia em que aconteceu. A primeira vez mesmo.

Lambera três selos e nenhum deles grudou no papel pardo no qual colocara seu manuscrito. Deveria ter tomado isso como um sinal. O quarto grudou, e grudou muito bem. Muito perto do desenho quadriculado estava o endereço do autor e, do lavo avesso, o endereço da editora.

Álvaro Barbosa de Abreu. Foi o nome que colocou no primeiro papel, o que antecede o manuscrito. Nesse papel estava escrito informações suas e do romance. Escreveu no papel até mesmo que estava disposto a ser chamado de Álvaro B. Abreu, nome que nunca antes usara.

O editor não deve ter gostado do nome de Álvaro. Por isso mesmo colocou o seu próprio.

Figueiredo Pinto, em letras garrafais, até maiores do que o título do livro, “Folhas de Verão”.

Percebeu o homem sentado no carro que ainda tinha a arma na mão, e aguardava. Olhou para o lado, para a grande casa ao lado e pensou. Primeiro, na sua própria, pequena e miserável. Depois, na fama do homem que lá morava. Quantos outros ele enganou? Quantas vezes saiu impune? Figueiredo era um escritor de renome, mas Álvaro bem notara ao ler seus livros que nem um era parecido com o outro, tanto no estilo de história quanto na voz do narrador.

Então era por isso e por nada mais. O homem que muitos idolatravam era um falso, um charlatão. Pior que padre evangélico.

Saberia a Fascínio sobre esse abuso da arte criativa?

Livros Fascinantes, dizia o site da editora.

Pensou Álvaro na vida ao todo, sempre tão injusta. Os que mais merecem são os que mais afundam. Injustiça pura. Injustiça puta.

Levou cinco anos para completar Folhas e agora vem um editorzinho de merda e rouba-lhe o romance? Não. Não ficaria assim. Pensou em entrar na justiça, mas de que isso adiantaria? A mãe de Álvaro fora uma mulher ligada nesses ramos. Sempre dizia ela: “querido, entenda, a justiça só é verdadeira para aqueles que têm os meios de pagá-la para que seja.” Sua mãe sempre fora uma mulher de honra, verdadeira, nunca roubara. Mas sempre contara ao filho, talvez novo demais para essas coisas, a respeito do que acontecia no Fórum.

A porta do carro se abriu e junto dela um pequeno som de bip, quase imperceptível. O som cessou junto do fechar da porta. A arma, carregou-a na mão por três passos, então a colocou na calça. Veio-lhe à mente a imagem da mãe. Sempre aparecendo nos momentos mais importunos.

Antes de pisar no pátio, pediu-lhe desculpas, e a imagem desapareceu.

A grama, bem verde, possuía pequenos sprinklers que giravam fazendo um barulho que reverberava nos ouvidos de Álvaro. Entre duas partes de grama, uma calçada de cimento que levava para a porta principal. A beirada do concreto estava mais escura por conta do contato com a água, mas seu centro estava tão seco quanto se podia esperar.

Mal havia Álvaro percebido que tinha seu livro (o livro do editor) debaixo do braço, no mesmo em que segurava a arma. Era destro.

A janela estava meio aberta, com apenas a cortina impedindo de ver dentro da casa. Podia-se ver que a luz estava ligada, assim como a televisão, que se podia ouvir. Estava ela ligada em alguma novela.

Entrou na pequena cobertura que ficava defronte a porta, e viu a guirlanda lá pendurada pelo próprio editor ou então a mulher. Num momento de estupidez, pôs a mão bem perto da campainha. Pensou em como poderia fazer o que estava para fazer. Não, assim não era uma boa ideia. Álvaro queria algo a mais, muito mais.

Era para ser incrível, coisa que seria lembrada por todos os que estivessem por perto ou ficassem sabendo do assunto. Será que a casa do editor tinha câmeras? Se tinha, seria ainda melhor. Viraria um sucesso mundial, pois é claro que alguém iria pôr as imagens na internet. Essas coisas sempre arranjam um jeito de aparecer no computador de todo mundo.

Girou o trinco com cuidado e notou que estava aberto. Toda a família estava na sala de estar, assistindo a televisão. Figueiredo estava no meio. Todos gritaram quando o diretor levou um tiro no meio da testa. E então Álvaro jogou no livro sobre ele, para se empapar com o sangue.


Lucas Zanella

No blog posto geralmente textos de opinião assim como também histórias curtas. Aqui você encontrará fantasia, terror e ficção científica. Talvez até mesmo algum drama ocasional.

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