Ladeira Abaixo

ladeira

A rua estava movimentada o suficiente, mas a mulher ainda assim conseguiu ver o ônibus se aprochegando na maior lerdeza do mundo. A grande lesma metálica de rodas na barriga parou logo ao lado da placa azul onde havia outro ônibus desenhado em branco. Acarolina carregava uma sacola de papel pardo grande onde guardara todas as suas compras, embora elas estivessem já no topo e ameaçando caírem. Seu equilíbrio e força fez com que tudo continuasse em pé.

Era ela quem prepararia a janta naquele dia, os amigos de trabalho do marido passariam lá na casa e ela queria que tudo ficasse bonito. Queria impressionar. A porta automática se abriu e algumas pessoas desceram. Ainda era possível ver algumas caras indiferentes sentadas nos bancos preto de couro na espera de que suas paradas chegassem.

O homem atrás do volante observou a descida e, quando a última pessoa se afastou, ele a encarou, na espera. Acarolina passou a sacola de compras para o braço esquerdo e com o direito pegou no pequeno corrimão para se segurar. Subiu os poucos degraus, mas, antes de chegar no último, mal havia notado, um dos tomates bateu no topo do encaixe da porta e rolou para fora da sacola de compras.

Ela apenas percebeu isso quando sentiu algo bater na sua canela. Virou-se de repente e viu a bolinha vermelha quicando pelos degraus e passando para a calçada, na ladeira.

– Não! Não! Não! – ela disse.

Desceu correndo do ônibus, a sacola ainda no braço esquerdo. Observava o rolar do fruto enquanto igualmente rápida o acompanhava na descida ladeira abaixo. Tropeçou no próprio pé, mas se equilibrou bem a tempo. Algumas das suas compras começavam a cair da sacola cheia, esvaziando-a.

As pessoas a observavam correr, mas não prestavam muita atenção. Um violonista que tocava por moedas, um mendigo que apenas alcançava um boné virado para pedir dinheiro, pessoas indo ou vindo de trabalhos. Ela não ouviu quando a porta do ônibus se fechou atrás dela, e o veículo seguiu seu caminho, com o motorista soltando um palavrão e falando de “brancos malucos”.

O tomate não cessava sua corrida, mesmo batendo em pés e indo de um lado para o outro. A ladeira também parecia não ter fim. As compras de Acarolina já estavam todas espalhadas pela calçada, mas nenhuma rolava como o tomate, todas estavam paradas, basicamente inúteis. Acarolina mesma não pensou que o fruto não teria utilidade após tanta poeira e batidas que sofria. Estava determinada.

A ladeira deu numa intercessão e o tomate correu pela rua asfaltada, o sinal no semáforo era verde. Acarolina não notou. Continuou sua corrida interminável atrás do fruto que chegou na outra calçada intocado se não pelo asfalto. Ela foi tocada pelo para-choque de uma SUV vermelha. O trânsito parou. A ambulância não chegou a tempo.

O tomate rolou até o lombar de um mendigo sentado no chão que, enojado pela sujeira do fruto, pegou-o e jogou-o na lixeira mais próxima.


Lucas Zanella

No blog posto geralmente textos de opinião assim como também histórias curtas. Aqui você encontrará fantasia, terror e ficção científica. Talvez até mesmo algum drama ocasional.

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