“Liberdade de expressão não é liberdade de consequências” é o pior argumento que já existiu

Uma das primeiras vezes que ouvi essas palavras foi durante uma controvérsia no YouTube. Se não me engano, o bafafá da época foi que canais com conteúdo de direita/conservador não apareciam para o público, deve ter sido na época da discussão sobre o “modo restrito”. O modo faz exatamente isso: impossibilita a visualização de certos canais. Embora esteja desativado por padrão no computador, aparentemente é ativado por padrão na televisão. O lado da internet que mais ficou furioso com isso foi o da direita, mas isso não levantou nenhuma poeira e nem a Google, nem o YouTube responderam. Mês depois, alguns canais LGBT começaram a também serem afetados por esse algoritmo. Dessa vez, a internet do lado esquerdo falou e à ela a Google se curvou, pois é inserido nela que ela está.

O assunto mais recente que vejo sendo discutido nesse âmbito é sobre um manifesto compartilhado por um engenheiro da Google. O manifesto criticava a política de diversidade da empresa, assim como também ressaltava que a falta de equivalência de gênero na esfera tecnológica se dá por conta de razões intrínsecas ao ser humano, isto é, homens têm gosto maior pela área das exatas, enquanto as mulheres preferem algo que tenha contato com outras pessoas etc, etc, etc. Não sei tudo, não li o manifesto*, apenas li aquilo que sobre ele foi reportado através do uso de palavras tão bem escolhidas que propagandistas da segunda guerra mundial aplaudiriam. Agora ele é comumente chamado de manifesto “anti-diversidade”, apesar de em nenhum momento falar contra a diversidade da empresa. Também é chamado de “machista” e dito que “perpetua estereótipos de gênero”, apesar de apenas falar coisas comumente aceitas pela ciência: homens e mulheres são diferentes e gostam de coisas diferentes. Era isso o que o manifesto dizia.

PDF: Leia o dito manifesto, se quiser.

Dizendo que a área tecnológica está inclinada para a esquerda no debate político, o autor do texto escreveu que pensamentos de direita por vezes não são aceitos, o que faz com que as pessoas desse lado precisassem ficar caladas para manter o emprego. Num ato cuja ironia Google não notou, ela respondeu a isso mandando o autor da coisa para o olho da rua. Então a frase popular volta a ser dita: liberdade de expressão (escrever o manifesto) não é liberdade de consequências (ser demitido).

Isto é, o autor teve e tem o direito de falar o que disse, mas isso não quer dizer que ele está salvo do que acontecerá após. Eu entenderia essa frase se a pessoa se referisse a alguém que falara “gays são viados”, ao que um gay maromba respondera com um tabefe. No entanto, estamos falando de uma empresa, algo superior a uma pessoa. Acima de tudo, estamos falando de uma gigante entre todas as empresas, então esperamos dela um decoro maior do que das micros.

Tive o mesmo pensamento durante a controvérsia com o YouTube, mas acabei por não falar nada. Farei aqui o mesmo que fiz na minha publicação Socando nazistas. Para que você melhor compreenda o outro lado, darei um exemplo usando o seu próprio:

A empresa de vídeos TubeYou é extremamente popular, é de personalidades nela encontradas que as pessoas tiram suas opiniões e suas notícias diárias. De repente, as opiniões da esquerda explodem, mas começam a ser abafadas. Logo descobre-se que, através das suas ações, TubeYou e sua dona Googol estão ativamente tentando retirar as opiniões esquerdistas da sua plataforma. Como fazem isso? Simples, elas impedem que canais de esquerda sejam vistos ou procurados no TubeYou (pior ainda: usam um método para mostrar ao usuário o exato oposto daquilo que ele está querendo ver**). A Googol diz que o conteúdo desse lado político não deve ser visto pelas pessoas, pois vão contra seus princípios. Você e toda a esquerda se enfezam, mas a Googol não diz nada. Ela não liga, sabe que o lado vocal da internet fica à direita.

“Liberdade de expressão não é o mesmo que liberdade de consequências”, fala um fascistinha alt-right  no Bookface, outra empresa que a eles pertence. Quão estúpido esse argumento, você pensa. Se a expressão de certa opinião for constantemente impedida e prejudicada através da impossibilidade de monetizar vídeos com conteúdo de esquerda, ela deixará de ser dita, deixará de ser compartilhada, e lentamente o pensamento morre, como era de se esperar. Ele voltará, é claro, e voltará muito mais forte, de um modo que ficará marcado na história, como sempre acontece, mas isso será depois e essas pessoas só pensam no agora. É [ano atual], afinal. Eles lamentarão a repressão, tornar-se-ão os oprimidos e então serão por fim oprimidos até a inexistência, pois o ciclo precisa continuar eternamente, a mola precisa ir e vir, ir e vir, ir e vir… E, por alguma razão, ninguém jamais se cansa disso.

No fim das contas, a consequência iminente faz com que a liberdade de expressão se torne inútil. Por que você deve levar a bala para falar algo se isso nem mesmo vai mudar nada, como já foi mostrado tantas outras vezes? Por que deve ser você a pessoa que publicará um manifesto na Googol contra a autoridade da direita se já sabe que isso levará à sua demissão? Então você entende realmente o quão ridículo era aquele argumento.

Xingamentos e demais críticas são apreciados; eu não sou o Globo, a caixinha de comentários fica sempre aberta. Se não acredita em mim, veja os idiotas em Um como outro qualquer.

*Embora use-os como exemplo, duvido que a maioria dos jornalistas tenha lido o manifesto. De fato, duvido que qualquer pessoa da esfera esquerda da internet o tenha lido, pois muitas coisas ditas por esse lado é refutado pelo outro, que cita o manifesto e mostra a falsidade na afirmação do primeiro. Eu sou prova viva disso, já que sou da esquerda e nem li o manifesto. A coisa tem dez páginas! Talvez se alguém fazer o audiobook. Tenho outros livros para ler. Uma parte do manifesto, pelo menos, ouvi no próprio YouTube.

**Ao mesmo tempo em que vejo a utilidade desse método para combater o terrorismo, nunca me sai da cabeça que estamos falando de uma empresa notoriamente de esquerda. Tenho a certeza de que cedo ou tarde a Google utilizará dessa estratégia para redirecionar pesquisas relacionadas ao anti-feminismo, ao conservadorismo, à luta pelo direito dos homens, à puta que o pariu. Sobre o primeiro ponto, também percebo que isso dificultará pesquisas para pessoas que não querem se juntar à ISIS, mas querem saber o que está acontecendo. Já vemos a chamada “mainstream media” (~mídia popular) ignorar coisas como estupros, sequestros, assaltos e assassinatos perpetuados por algumas pessoas de uma certa religião, então me pergunto quanto tempo demorará para que essa mesma estratégia seja usada para coisas mais abrangentes do que vídeos da ISIS. Quanto tempo até que deixemos de ver as notícias horríveis que a Google não quer que vejamos porque se tratam de crimes cometidos por determinadas pessoas? Lembre-se do caso que citei no início: não demorou muito tempo para que o “modo restrito” começasse a mudar de rumo. Foi consertado, sim, mas porque foi a parte relevante da internet que reclamou. Deus, eu pareço aqueles caras de teorias da conspiração: o filme. Enfim, é algo para se ter em mente.


Lucas Zanella

No blog posto geralmente textos de opinião assim como também histórias curtas. Aqui você encontrará fantasia, terror e ficção científica. Talvez até mesmo algum drama ocasional.

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