Morte por Misericórdia

thumbnail

Milton já estava completamente fora de si. Hora ou outra ele derramava um pouco de conhaque sobre o cano da espingarda e usava as próprias mãos calosas para espalhá-lo como se fosse um óleo mágico que comprou na Casa do Velho Chico três meses atrás, na última vez em que foi para o centro da cidade. O conhaque não ajudava a espingarda, mas Deus é testemunha de que ele também não fazia mal nenhum para ela.

Quanto ao próprio Milton, ele ia bastante bem. Isto é, apesar de a esposa ter morrido quatro meses antes e ele se sentir bastante sozinho no ranchinho que eles dividiram. Mas ele não bebia porque tinha pena, ele bebia porque precisava matar o cavalo. Sim, o cavalo que ele sempre adorara, aquele de pele marrom mas de pelos tão pretos que eram azuis. E bastante azuis quando a luz os acertava da maneira certa. O cavalo estava no estábulozinho, que era apenas um lugar onde deixavam ele preso durante a noite para que não adoecesse. Nunca tiveram mais cavalos para precisarem construir um estábulo maior ou então arranjar mais um pouco de madeira para aumentar aquele ali.

Era pôr do sol e não demoraria muito para que a noite caísse por completo no rancho, e com a noite viria o sereno, que na verdade ainda estava espalhado pelo campo. Não era um grande campo, mas a altura da grama poderia enganar quem olhasse rápido lá de cima, da estrada, enquanto a caminho do centro. A grama nunca ficara tão alta assim, na verdade. É verdade. Sempre fora do tamanho certo, que era o suficiente para o cavalo comer. Claro que, maior, o cavalo podia comer muito mais. Se Milton morresse agora mesmo, com a espingarda na mão, o cavalo ainda poderia sobreviver por talvez um mês ou mais antes de precisar correr do rancho para achar mais comida ou então um outro dono. Pelo menos considerando que conseguiria correr por tempo o suficiente.

Duas das pernas do cavalo (a mulher o havia nomeado Calo) estavam machucadas. O velho Milton não tinha certeza de como elas acabaram assim, mas era possível que houvesse algum outro animal rodeando o rancho e que pulou a cerca malfeita. Milton tinha um grande desprezo pelos animais carnívoros, preferia os herbívoros. Nunca criou vacas para comer, mas tinha um galinheiro no lado oeste do rancho com pelo menos umas doze galinhas e um galo. O próprio Milton não era vegetariano, mas a mulher havia sido por alguns meses durante um curso de costura que fizera na capital quando ainda era moça. Não tivesse sido o curso, ela não teria ido trabalhar na senhora Frida quarenta anos antes e eles não teriam se conhecido quando Milton levou um par de calças rasgadas para a costureira remendar de novo.

Também é possível que tivesse sido o arame farpado que cercava o rancho. O cavalo podia ser bonito, mas não era muito esperto. Se tivesse se machucado nele uma vez, não demoraria para se esquecer e voltar. Esse cercado era algo que Milton sempre quisera consertar, mas estava sempre tão ocupado com outras coisas que acabou que ficou por isso mesmo. Uma porcalhada sem tamanho. Na verdade a culpa não era toda do velho Milton, veja, a parte dele até que ficou razoável, mas ele tinha pagado uma boa nota para um garoto ajudar ele a rodear o rancho com o arame.

Havia até mesmo ido à cidade pegar o moleque e então levado ele de volta quando o trabalho foi terminado. O cercado deu para o gasto, mas se perguntassem para o velho se o dinheiro havia valido a pena, ele diria que não e ainda confirmaria com outro.

O cavalo apareceu na frente do rancho, olhando para baixo e passando a cara na grama alta. Não estava comendo ela, mas mais como escolhendo a melhor parte, bem como Milton demorava para escolher a melhor parte do frango quando ele e a mulher comiam. Ela sempre reclamara que ele demorava tanto que a comida esfriava antes mesmo dele enfiar o garfo na carne.

Pobre cavalo Calo, Milton pensou com seus botões, observando o animal passear com a velocidade de um jumento pelo campinho. Antes das pernas machucadas, ele sempre fora rápido e ágil, poderia até ganhar uma competição se decidissem inscrever ele numa. Agora as coisas iam de mal a pior. Quando você parava bem em frente ao animal e olhava ele nos olhos, via o quanto custava para ele andar com aquelas pernas doloridas. Então por isso, na semana anterior, Milton decidira que precisaria poupar ele da dor com um tiro da espingarda.

Demorou toda uma semana até que enfim tirasse a malvada da parede e se obrigasse a arrumá-la e ver se estava tudo certo. Agora estava ali, sentado na varanda, com um conhaque na mão e a espingarda no colo fazia pelo menos umas dez horas. Afinal de contas, ainda era dia quando ele saiu da casa e fechou a porta com força.

Ele descansou a xícara da qual bebia no banco, ao lado do vidro quase vazio. Havia mais vidros no chão, pelo menos uns seis ou sete, mas Milton não conseguiria contar mesmo se precisasse. Só tão tonto assim foi que conseguiu a coragem para se levantar da cadeira. Agora, ele pode ter caído de volta nela bem rapidinho, mas se levantou de novo e dessa vez desceu os degraus de madeira com passos confiantes, embora fora de sincronia.

Ele estendeu os braços, pedindo para que o cavalo ficasse parado. E o cavalo ficou, sem medo da espingarda na mão de Milton.

– Eu tô fazendo isso para você não sofrer mais, tá bem? – ele disse para o cavalo, meio chorando. – Você não consegue mais andar direito, e fica sofrendo nesse rancho, nem mesmo tem companhia para que ao menos não sofresse tanto.

Era uma pena que precisasse fazer isso, ele sabia, mas tinha de ser feito. Afinal de contas, não tinha como o cavalo continuar vivendo como antes quando uma parte dele estava praticamente destruída. Era uma pena mesmo.

Calo parou de vasculhar por comida pelo chão e levantou a cabeça para encarar Milton, talvez sem saber o que fazer, talvez sem nem saber o que ia acontecer. Coitado, coitado mesmo. Mas também era tão velho, não estava mais no auge, não conseguiria se recuperar, não daquilo, não depois de tanta dor e tanta sofrência.

Era, realmente, uma morte por misericórdia. Milton puxou o gatilho. As balas atravessaram o crânio numa explosão de som e de sangue. Estava em paz, agora não mais sofreria. Ele balançou um pouco para frente como se fosse cair de joelhos, mas talvez um vento mais forte do que o comum tenha passado e isso fez com que ele saísse de costas na grama, o sangue saído na cabeça se esparramando pela grama. Apesar de um relincho assustado, não muito tempo depois o cavalo voltou a se acalmar e continuou a escolher qual parte da grama comeria primeiro. Ele se afastou do corpo e comeu um pouco da grama perto de uma árvore um pouco antes do cercado. Tinha respingos de sangue nessa grama mesmo tão longe do corpo.

Calo abriu uma bocarra e abocanhou o seu pasto. Talvez os nutrientes que encontraria na grama, misturado com o sangue do dono, fosse dar a ele uma nova energia e as vitaminas necessárias para se reconstituir. De todo modo, havia pasto o suficiente por um mês inteiro e até mais. Boa parte desse pasto estava, sim, escorrendo algumas gotas vermelhas que chegaram até lá pelo estrago da espingarda. Mas, sim, talvez e com sorte ele se recuperaria. Ele era, afinal de contas, um cavalo velho, e se recuperar de tragédias e feridas não era mais algo tão fácil quanto antes.


Lucas Zanella

No blog posto geralmente textos de opinião assim como também histórias curtas. Aqui você encontrará fantasia, terror e ficção científica. Talvez até mesmo algum drama ocasional.

One Comment

Comente a postagem! :)