Natal Branco

Thumbnail

Era a época do ano mais esperada. Por crianças, pelo presentes; pelos adolescentes, pelas férias da escola; e pelos adultos, porque ficavam em casa e podiam conversar com os amigos que há muito já haviam se esquecido deles por conta de tanto trabalho. Por todo o mundo, as pessoas celebravam o nascimento do velhinho gordo e vermelho. Quer seja cristão, hindu, muçulmano ou ateu, você mais que certamente recebe energias natalinas por todo o fim de ano.

No Brasil, nunca nevou na noite de natal, com exceção de um caso, muito especial, em que um jovem chamado Lira Caxias teve um natal branco. Sua casa não era a das melhores, de madeira e toda caída. As janelas já não se abriam sem antes gemerem e a porta não entrava sem antes levar um bom chute. Ele não morava sozinho, estava junto da sua namorada. Eram ambos muito magros, alguns diriam mais do que o recomendado, e também seus cabelos não eram dos melhores. Ambos morenos, os fios eram todos fodidos porque não tinham dinheiro o suficiente para comprar sabonete e xampu.

O sabonete também não era dos melhores, e por isso suas peles eram ressecadas, e cheias de pequenos buraquinhos de ar que lhes davam uma característica marcante. Quem os via, não se esquecia tão fácil dos rostos. A salinha em que estavam possuía apenas um sofá, todo rasgado, que acharam na rua, e o chão, de tábuas com frestas, não possuía tapete algum. Era uma casa em que ninguém gostaria de morar, mas eles a amavam de todo o coração, e não apenas por ser ela a única coisa de valor que realmente tinham. A casa apenas emanava um charme diferente do comum, emitido pelas mansões dos ricos: aquela beleza exótica da construção combinava com eles. Era assim que sabiam que seu lugar é e sempre será ali.

O natal branco começou à meia-noite, quando Lira Caxias entrou após arrombar a porta. Sua namorada estava sentada no sofá, deprimida. O que ele trazia consigo levou-lhe um sorriso ao rosto, e ver a namorada sorrindo era tudo o que Lira queria. Amava-a também de todo o coração, até mais. Os dentes não eram dos melhores, mas sempre davam a ele arrepios gostosos ao vê-los. A sensação, para ela, era a mesma.

Lira abriu o saco que carregava e despejou todo o conteúdo no chão. Naquele dia conseguira dinheiro extra numa das lojas por onde passara, e o vendedor ficou mais do que feliz em dar-lhes aquele presente. Assim que tudo caiu no chão, Lira pegou outro saco e continuou a derramar, e depois foi outro, e outro. A namorada estava deitada no chão, seu rosto todo sujo. Lira, ao seu lado, pegou sua mão. Olharam-se nos olhos, o dele azul e o dela verde, e amaram-se ali.

Na manhã de natal, acordaram ainda sobre toda a cocaína, algum pouco caíra pelas frestas mas não havia importância. E aconteceu o natal branco. O primeiro do Brasil.


Lucas Zanella

No blog posto geralmente textos de opinião assim como também histórias curtas. Aqui você encontrará fantasia, terror e ficção científica. Talvez até mesmo algum drama ocasional.

Comente a postagem! :)