O Homem Que Não Queria Matar

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Olhos. Algo tão comum, mas ele se lembra de todos os que viu desde o dia em que a desgraça começou. Os olhos deles possuem qualquer coisa de diferente, um leve tom de azul-esverdeado e mais ou menos felinos, pontiagudos.

Ah, sim, desde que a desgraça começou ele já viu muitos olhos. Encarou-os de perto, então se afastou na pressa, foi assim que sobreviveu tanto tempo. Vendo filmes e seriados na televisão, que mostravam a espécie e o modo de matá-los com tanta facilidade, quando a coisa realmente aconteceu, todos entraram em choque.

Verdade seja dita, boa parte do mundo simplesmente perdeu a cabeça, pegou a espingarda e começou a estourar os miolos dos zumbis. Outra parte, sucumbiu por não serem fortes o suficiente ou inteligentes o suficiente para sobreviver no novo planeta Terra. Este homem, ele sobreviveu, arrombou casas e catou comida, viu os monstros e saiu correndo. Que não seja tomado como um covarde.

A primeira coisa que fez foi conseguir uma arma. E um coldre, no qual o revólver descansava, de cartucho cheio. Na mochila, mais quatro clipes para quando o primeiro acabar. Fazia um ano, e a arma continuava praticamente intacta. Fora sacada muitas vezes, apontada outras mil, mas nunca disparada. Trezentos e sessenta e cinco dias, o homem se tornou um perito em se rastejar, se esconder e não chamar atenção. Mas que já viu muitos olhos, isso sim.

Encontrou grupos de sobreviventes, mas após poucas horas teve de partir porque não suportava a matança. Alguns matavam com prazer, outros, como se fosse um dever, e ainda outros, como se fosse nada de mais. Era apenas algo que tinha de ser feito e pronto, nem carecia maior pensamento.

Outro zumbi apareceu, entrou pela janela quebrada. O homem havia se distraído por alguns segundos, e só foi notar o aparecimento quando o intruso estava tão perto. Mas se esquivou do ataque. A arma saltou do coldre com eficiência e foi apontada diretamente para a testa do bicho. Como se por parte da evolução, eles aprenderam que isso significava perigo, então a criatura ficou parada por alguns segundos, talvez temerosa da morte.

E que Deus ajudasse o homem, pois ele não atirou. Pegou sua mochila e saiu andando de costas. Só correu quando a criatura percebeu que não estava em perigo.

Que não o chamem de medroso ou covarde, não senhor. Se algo, era o homem mais corajoso da face da Terra, a nova Terra.

O Homem Que Não Queria Matar


Lucas Zanella

No blog posto geralmente textos de opinião assim como também histórias curtas. Aqui você encontrará fantasia, terror e ficção científica. Talvez até mesmo algum drama ocasional.

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