O Pássaro Morto

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Não quero enganar ninguém. A história é real, embora talvez o mais nojento seja por causa da minha cabeça de garotinha naquela época. Mas, ao mesmo tempo, não é. Me lembro muito bem de tudo, e como vou contar é como vi. Outro dia contei a história pra um colega na cafeteria, e ele mesmo ficou incomodado com o fato. Imagine agora a mente de uma garota de nove anos.

Mas precisamos ir por antes. Vamos começar do começo. Mas preciso dizer que sou terrível em contar histórias, muito terrível conseguir me concentrar nas coisas sem que algo diferente me atire para outro lado por completo. Papai mesmo sempre dizia que

– Mabel, você anda sempre com a cabeça na lua que algum dia vai acabar explodindo sem nem saber porquê.

E a mãe da cozinha o repreende:

– Cale a boca, Maurício. Deixe ela em paz. Ao menos um de nós tem que ser feliz nessa casa, então que seja ela.

– Felicidade e idiotice são duas coisas muito distintas. – E volta a se concentrar nos seus cálculos.

A garota anda pela sala de estar com os olhos vendados e de pé em pé, como se fosse um astronauta na lua. Ela não via nada ou pensava em muita coisa, a diversão vinha justamente da semnoçãozisse que estava na sua brincadeira inventada em última instância para suprir a falta de companheiros. O dia lá fora estava mais escuro do que o comum, me lembro disso depois que tirei a venda e fiquei de frente à janela da sala. É uma grande fenestra com um vidro tão transparente que Mabel não sabia se ela estava aberta ou fechada. Sente uma brisa quente chegando por trás, mas nada pela frente. Ela se vira e percebe a janela do outro lado aberta em excesso. Puxa um banco, sobe nele e a fecha.

Depois do jantar, todos vão dormir. O pai vai primeiro para a cama, dá apenas um beijo na bochecha da filha e se faz sumir. Mabel pula na sua cama e fica se jogando de um lado para o outro sem sair do lugar enquanto o sono não chega. Mamãe chegou muito tempo depois, era provável que ela e o papai estivessem discutindo baixinho para que eu não ouvisse. Eles sempre discutiam durante a noite, e quando eu não dormia logo podia ouvir a conversa, mas nunca consegui realmente entender o que falavam. Naquela noite foi a mesma coisa, com a exceção de que Mabel estava com a cabeça ainda na lua.

A mãe chega e manda a filha ir para debaixo das cobertas. Ela agarra a ponta e as puxa mais para cima. Inclina-se e dá um beijo na mesma bochecha que o pai. Mabel também a beija repetidas vezes até que a mãe fecha a porta e sai. Há uma luz da rua que passa pelas frestas da veneziana e iluminam um pouco o quarto. Assim, ela não tem medo do escuro e não precisa deixar um abajur aceso no criado-mudo ao lado.

Os pais estão conversando ou discutindo no quarto mais ao lado, mas Mabel não lhes dá atenção. Ela encara o teto, que está cheio de estrelas de plástico que brilham no escuro grudadas. Estrelas comuns, estrelas cadentes e luas também, na verdade. As olhei por tanto tempo e pensando em tanta coisa que não sei dizer quando foi que dormi, pode ter sido durante a madrugada ou também no início do dia.

Depois do almoço, um vizinho chegou e bateu na porta apressado. O pai e a mãe dormem e não ouvem o bater frenético. Mabel sai da cama e vai para a sala. Shiro nem espera para ver quem abre a porta para agarrar a mão.

– Vem, você precisa ver isso – ele diz e sai correndo.

Nem mesmo tive escolha, ele me agarrava com força, corria numa velocidade tão alta que era provável que se eu me soltasse cairia de cara no asfalto.

– O que é? – ela pergunta.

– Você vai ver, é incrível.

A voz dele ainda é bem aguda e de criança. Mabel mesma já possui um tom mais maduro. Não consegui identificar naquela idade, mas ainda me lembro bem, era a voz de um louco.

Não saberia dizer quando foi que a loucura realmente estalou. Provavelmente já fazia muito tempo. Com toda a moléstia que sofria com o padastro, como depois a polícia descobriu, era provável que toda a cabeça dele tivesse ficado fodida muito antes dele encontrar a coisa. Mesmo na aula eu sempre via ele saindo de zona e encarando a parede ou então o quadro sem prestar atenção. Lembro que uma vez pensei que ele tivesse catarata, porque o olho dele era leitoso igualzinho ao do meu vô.

Mabel desiste de se soltar e apenas trata de correr junto de Shiro. Eles estão no meio do trânsito. Os carros vão parar no sinal, mas o garoto não aguarda para verificar se isso vai mesmo acontecer.

Há uma buzinada, mas Mabel não acha que foi para eles. Shiro pula uma cerca e é atrasado porque Mabel bate de frente com ela.

– Anda logo – ele diz para a menina que toma cuidado ao pular.

– Calma.

Assim que ela põe os pés no chão do outro lado, ele de novo a pega pela mão e a arrasta por um campo espaçoso. Apenas mais um pouco para o lado é que a terra está cercada, porque é onde está previsto começar a construção de um shopping de luxo.

– É por aqui – Shiro diz, quase babando. Mabel pela primeira vez se pergunta o que é que ele viu de tão incrível assim.

Ele nunca havia conversado muito comigo, então não sei por que decidiu ir na minha casa e me levar com ele para ver a descoberta. Com isso em mente, ela fica ansiosa para ver o que é.

Eles param não muito atrás de um bar velho, abandonado, trancado e sujo. Estão espalhadas pelo chão várias garrafas vazias, algumas ainda com cerveja dentro.

– Olhe!

Shiro a encara com olhos arregalados e com sacos roxos sobre eles. Me lembro de serem olhos verdes bem grandes. Mabel vira a cabeça e olha para os lados, mas não encontra o que ele quer que veja.

– O que é?

– Ali! – ele aponta e ela enxerga.

Tampei a boca e dei um passo para trás. Graças a Deus ele não me segurou e fez com que eu me aproximasse pra ver melhor. Aquilo era loucura.

– Viu só?

Ele se agachou e olhou o pombo morto mais de perto, como devia ter feito já várias vezes. O pombo está com uma asa quebrada quase saltando para fora. Era absurdamente grande, como eram os pombos lá na cidade. Por conta do seu tamanho, ele também dá um certo medo a Mabel, que dá outro passo para trás.

Era provável que o animal tivesse morrido após se jogar na parede do bar em alta velocidade enquanto voava. O pescoço está achatado, um pouco torcido também. O pássaro está bem escondido entre algumas caixas vazias de cerveja. Há moscas voando em volta, o que indica que ele está lá também há algum tempo.

Shiro põe a mão numa caixa e a puxa para o lado, assim dá mais visibilidade para o pombo. A visão dá um nó no estômago de Mabel. Me lembro de ter pensado num milho estourando e virando pipoca, o pombo estava quase todo para fora, bem como se tivesse explodido depois de bater no tijolo mal rebocado. Shiro estende a mão e puxa Mabel mais para a frente. Ela não nota o pombo, mas sim o rosto encantado do vizinho.

Ela está acostumada a ver garotos apaixonados por animais mortos. Na escola, todo dia um deles aparece com uma minhoca, barata ou aranha morta para mostrar aos outros. Mas o rosto desses colegas não é nem um pouco como o de Shiro no momento. Ela se pergunta o que é que isso significa, se é que significa algo.

Tem vezes que penso que pode ser culpa da cidade. Todo mundo era meio maluco lá. Não é à toa que tô aqui contando isso pra vocês, não é, doutora?

Ele larga a mão de Mabel e a estende para o pombo. Mabel pensa em falar algo, mas desiste quando vê que Shiro também desiste da sua ação. Então ele de novo toma coragem e passa a mão no pombo.

– O sangue dele tem gosto doce – ele me disse sem nem provar, ainda bem.

Mabel se vira e corre um pouco, mas não consegue mais porque precisa parar para vomitar. A última coisa que ela se lembra antes de desmaiar sobre o próprio vômito é ver Shiro com o pombo morto nos braços, como um bebê.

Depois disso, nunca mais falei com o maluco. Não sei bem o que aconteceu com ele. Lembro que uma vez vi algo sobre um acidente de carro. Não sei se ele foi atropelado ou se atropelou alguém. Mas também eu nem quero saber nada dele, não. Esse tipo de coisa eu prefiro até deixar quieta na cabeça, já que não dá pra tirar dela. Quem é o próximo? É você, Lulu?


Lucas Zanella

No blog posto geralmente textos de opinião assim como também histórias curtas. Aqui você encontrará fantasia, terror e ficção científica. Talvez até mesmo algum drama ocasional.

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