O próximo passo da literatura

Era uma gelada noite de segunda-feira. O ponteiro do relógio avançava com lerdeza, e eu o encarava esperando ansiosamente pelas nove da noite. Faltavam quinze minutos. A professora apertou um botão em seu computador e a projeção mudou, com novas informações sobre o Arcadismo… e foi quando percebi algo escrito no último item.

Não pode ser apenas eu que percebi isto que vou lhes contar, mas talvez tenha sido um dos poucos que fez esse tipo de trabalho mental em volta da informação; em parte porque tenho muito tempo e espaço cerebral livre que preencherei com o que? Bhaskara? Fórmulas de física? Por favor!

Estudamos as escolas literárias em Literatura, e se não me engano a informação que vi MV5BMTQyNjE0OTY3NF5BMl5BanBnXkFtZTcwMzk4NTkxNA@@._V1_SX640_SY720_estava num slide sobre o Arcadismo, mas sempre esqueço os pormenores. Mas, graças à minha turbulenta mente, lembro-me do plano geral, e do que pensei ao ler a informação. Ela dizia que foi no Arcadismo que os escritores tiveram um maior conceito sobre o publico leitor; quer dizer, traduzindo para atualmente, foi nessa escola que eles começaram a escrever para as crianças, os adolescentes, os adultos e os velhos. Creio que esse seja um exemplo equiparável quando falamos dos dias atuais.

Afinal, sempre há em formulários de envio de originais um espaçosinho para escolher o tipo de público que lerá meus livros. E, como não há a opção “nenhum” ou “apenas aqueles que ficarem de saco cheio o suficiente para comprarem o livro quando falo dele”, sempre escolho Jovens-Adultos, pois esse é o termo mais amplo que existe. Verdade seja dita, creio que esse público vá dos 10 aos 30, embora a indústria deva considerar dos 12 aos 22.

A super-mega-hiper-incrível descoberta que fiz foi a do Brasil. Mas isso foi em tempos antigos, num corpo que ainda não era este pelo qual lhes transmito a mensagem. A segunda descoberta foi que, talvez, só um pouquinho mesmo, haja a possibilidade de que a próxima escola literária vá extinguir esse conceito que está conosco desde que os cara resolveram que a Arcádia era show. Isso mesmo, creio que em breve (isto é, dez ou vinte anos, no mínimo) perceberemos que essa de público leitor não está com nada.

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Aqui vão meus argumentos bem construídos:

Já li de tudo, exceto boa parte do que já foi escrito; mas o que li, li com vontade, exceto esse Crepúsculo que comecei para saber como era uma narração, julgada por tantos, ruim. Vi documentários e entrevistas de escritores que admiro e até alguns que nunca nem mesmo li, como Saramago, Machado de Assis, HP Lovecraft e Edgar Allan Poe. Veja, algo que encontrei nas entrevistas daqueles que admiro (Stephen King e JK Rowling) foi algo simples: diversidade.

É a maldita diversidade que está por toda a parte. Tipo quando apareceram pontos pretos num mar de branco, e então todo mundo ficou bananas. Mas aquele tipo de diversidade é algo bom; numa fila para fazer perguntas a SK, há adultos e crianças, uma com uns sete anos, se não me engano; e numa fila de autógrafos da JK, há muitíssimas crianças, assim como adultos que querem um rabisco da mulher. Lembro-me de ter ouvido alguém falando que o autógrafo era para a mãe de 73 anos, foi num documentário. E mais tarde apareceu uma mulher que bem mesmo deveria ter 73 anos, e estava lá na fila.

O que isso nos mostra é que o público-alvo agora é nada. Nada senão uma mera sugestão. Se crianças leem SK e adultos e idosos leem JK, podemos ver que realmente estamos numa época em que essa de alvo será extinto. E é bem-feito. Não que o público-alvo tenha me magoado na adolescência por não responder às minhas cartinhas amorosas, não é nenhum ressentimento, mas sim é o fato de que consigo agora ver que a literatura nada mais é do que um papel com letras (hoje em dia nem mesmo papel é).

Veja também o caso de Cinquenta Tons de Cinza, lido por mulheres solteiras de quarenta anos ao redor do mundo, mas lido por mulheres solteiras de 15 anos também; e algumas com maridos ou namorados, provavelmente. Há como categorizar ou delimitar um grupo para um livro desse tipo? Bom, nesse caso até vai: mulheres. Mas há muitos outros casos em que isso acontece.

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O Mágico de Oz e Alice no País das Maravilhas não são livros adultos, são infantis, mas todos leem ou podem ler, pois são livros bons. A história ajuda muito quando falamos de abolir o público-alvo; e essas duas, assim como Harry Potter, têm histórias incríveis que serão lembradas por muito tempo, talvez até mesmo para sempre. E aquelas histórias que não foram escritas para serem histórias, e sim para serem livros infantis, se mostram com dificuldades para encontrar leitores diferentes, são apenas crianças que as leem. Está tudo na trama, embora também um pouco na mente do escritor, afinal, é ele quem a escreve.

Algo que sempre falo (para mim mesmo) é que não escrevo para determinado grupo de pessoas, escrevo para quem quer ler uma boa história. Uma que julgo boa, pelo menos. E creio que todos esses escritores infantis (e também o SK) tinham o mesmo em mente, apenas queriam contar algo que, em primeira instância, entretivesse, e, em segunda, fizesse pensar. Não é a toa que livros como Alice e Oz podem ser relidos de outras formas, apenas os deem a um psicólogo e verão o que quero dizer.

No fim das contas, queremos entreter, e o entretenimento não é preconceituoso, ele serve todos da mesma forma, quer seja criança ou idoso. Está na hora de percebermos isso.


Lucas Zanella

No blog posto geralmente textos de opinião assim como também histórias curtas. Aqui você encontrará fantasia, terror e ficção científica. Talvez até mesmo algum drama ocasional.

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