O Lenhador

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O homem ia com um grupo maior para a floresta, carregava sempre o machado no ombro, a parte afiada apontando para baixo. Era como mostrava aos outros que não queria conversa, não queria fazer amigos, não queria nem mesmo apenas trabalhar. Queria destruir árvores. Sua vida parecia continuar pelo simples fato de que gritava “madeeerreira” umas quinze vezes cada dia de trabalho.

Se não cortasse, se zangaria e gritaria. Enquanto os colegas derrubavam talvez quatro ou cinco, ele triplicava o número. E o fazia com um sorriso no rosto. Porém não enquanto cortava, balançando o machado para trás e para frente com um impulso forte, enquanto cortava ele mantinha uma expressão de ódio, os dentes saltando para fora e agarrando o lábio superior com força. Seus olhos, os outros colegas poderiam jurar, ficavam vermelhos enquanto ele cortava.

No fim do dia, ele sempre saía com farpas de madeira na roupa e no cabelo. Seiva escorria pelo óculos de proteção, mas ele não parecia notar, estava absorto, boquiaberto como um palerma feliz. O horário de trabalho em que ele podia gritar e grunhir sem olhares tortos devia ser para ele como um longo orgasmo.

E então houve a clareira.

No dia, derrubara mais de trinta grossos troncos de sequoias. Rugiu como um ogro a cada balançar do machado, cujo ferro continuava afiado mesmo após tanto uso. Ele andava com o objeto de trabalho sobre os dois ombros, por trás da cabeça. Segurava-o nas duas extremidades, como se já tivesse terminado o serviço, embora os colegas soubessem que, se ele visse outra árvore dando sopa, ele entraria novamente no modo assassino. Apesar de não estar no serviço, tinha o rosto zangado de sempre, só que a expressão se iluminou quando chegaram numa clareira.

No centro, uma única árvore longa, uma das que estavam na lista para o corte. Era difícil ver seu topo, mas não era impossível. O homem viu os pássaros, era certo. O ninho pequeno de galinhos marrons e sobre ele dois pássaros, um grande e um pequeno. Após mais algum tempo, percebeu os ovos que aguardavam para se quebrarem de dentro para fora.

A ave era toda branca com uma cabeça vermelha, o pelo se estendia mais um pouco para cima, o que fazia com que ela parecesse ter um topete ruivo. O homem abriu um leve sorriso e largou o machado no chão.

Alguém gritou do fundo:

– Vamos cortar.

Abruptamente, disse que ninguém cortaria aquela árvore. Os colegas reagiram e lembraram-lhe que estavam a serviço, deveriam cortar todas as que se enquadrassem na descrição. Ele gritou e se pôs em frente a árvore, de frente para os outros.

– Ninguém cortará essa árvore – repetiu.

Eles agarraram seus machados com força, torcer-lhes-iam se não fossem feitos de madeira resistente.

Piaram para que saísse da frente e deixassem que eles fizessem o seu trabalho, mas o homem se recusou e continuou com o pé plantado ali. Os colegas se aproximaram e levantaram seus machados. Pediram mais uma vez e receberam outra recusa.

Não pareciam tão selvagens quanto o lenhador enquanto o partiam ao meio. Suas expressões estavam neutras. Era apenas um trabalho.

O barulho de ossos sendo partidos ao meio, e o sangue que como seiva grudou nas lâminas, nas madeiras e nos punhos. O lenhador continuou grudado no tronco da árvore depois que o repartiram. Suas pernas se esparramaram no chão verde da floresta. Continuou vivo por alguns instantes, a morte não foi repentina.

Gritou enquanto os colegas passavam os machados agora no tronco, suas expressões ainda sem nada expressar além de indiferença. O pássaro maior, junto do filho, começou a cantar sem perceberem que estavam prestes a perderem suas casas. Os ovos cairiam no chão e o corpo morto e gosmento dos fetos se misturaria com o sangue do lenhador que tentara lhes proteger.

Enquanto seus protestos começavam a diminuir na medida em que morria, o canto ficava mais e mais forte. Logo outros pássaros se juntaram, de outras árvores e outros ninhos. O lenhador teve para o seu enterro, um coral.


Lucas Zanella

No blog posto geralmente textos de opinião assim como também histórias curtas. Aqui você encontrará fantasia, terror e ficção científica. Talvez até mesmo algum drama ocasional.

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