Quebra de Votos

QuebraDeVotos

Meu coração pulsante tentava romper das artérias e saltar para fora. Com um certo sucesso, controlei-o, e a pulsação estabilizou. Ninguém desconfiava do quão nervoso estava. Era comum suar na batina, e era uma ardente manhã de verão.

      Naquele mesmo dia, mais cedo, realizei uma conversa com um fiel. O homem chegou correndo, suando feito um porco, mancava como uma gazela perneta. Pediu para se confessar e o levei até uma salinha pequena e íntima, onde os que tinham algum pesar no coração se sentiam à vontade. Em grasnos, o homem confessou seu pecado perante a mim e a Deus. Exsudando de todos os seus poros, levantou-se e abriu a camisa para mostrar as marcas espalhadas pelo tronco como prova do que fizera. Eram arranhões dados pela antiga amada.

      Revelou a que veio. Precisava confessar que a matara por uma traição, e agora buscava o perdão divino. Tinha o medo de que o céu pudesse lhe ser negado quando o fatídico dia chegasse.

      Tapeei a cruz que sempre carregava no peito. Ajustei o barbante no pescoço, pois o peso da madeira era grande como seu tamanho. Disse o que ele devia fazer: rezar e pedir perdão. Era o que sempre falava, independente da ocasião. O assassino perguntou uma coisa que lhe intrigava. Não se preocupe, eu disse, sou prometido a não revelar nada que me é dito nas confissões.

      No restante do dia, meus pensamentos travaram. Por uma semana inteira, passei incontáveis vezes pela frente da delegacia. Meu coração dizia para não quebrar os votos, mas a razão também era forte. O assassino deveria ser punido pelo seu crime, isso era previsto em lei.

      Cheguei a uma conclusão, enfim. Chamei-o antes da missa começar, disse que precisava falar com ele no mesmo lugar onde se confessara. Os fiéis não paravam de aparecer, mas não desviei do meu objetivo. Havia de ser feito.

      Tranquei a porta quando o homem entrou e se sentou. Com a mão tremendo, agarrei a cruz. Tirei-a do pescoço e segurei-a pela base. O outro me encarou nos olhos, pensando estar livre de qualquer punição. Observei-o de cima. Num forte balançar da mão, bati a ponta da barra cruzada na sua têmpora. Ele se despenhou no chão, empurrando involuntariamente a cadeira na qual estava sentado. Puxei a batina para poder me inclinar, a cruz ainda na mão forte. Espanquei-o até que a madeira ficasse encharcada num líquido vermelho, viscoso.

      Não demorou para que os gemidos baixos cessassem. Tive a certeza de que ele não se levantaria mais. Larguei a cruz sobre seu peito molhado. O sangue escorria da cabeça e da orelha, rastejava lentamente pelo pescoço, como água na valeta ao lado de um matadouro. Alguns pingos caíam no chão branco de linóleo e ali projetavam o início de uma poça.

      A justiça, enfim, fora cumprida. Foi um pesar ter de fazê-la daquela forma, sim, mas não tive outra escolha. Veja, não podia quebrar meus votos. Era e ainda sou um homem de Deus, fiel demais para mesmo considerar a opção. Voltei ao salão e lá rezei a missa. Demorou três horas até que o cheiro podre do corpo morto se impregnasse em cada canto, mas já não havia ninguém dentro da igreja.


Lucas Zanella

No blog posto geralmente textos de opinião assim como também histórias curtas. Aqui você encontrará fantasia, terror e ficção científica. Talvez até mesmo algum drama ocasional.

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