Seja legal com estranhos

Morning Chat and Coffee

Na vida, conhecemos pessoas. Muitas dessas são passageiras, amigas de escola, professoras favoritas. Algumas outras são más. E há aquelas que ficam na sua vida, ou, pelo menos, causam nela um grande impacto.

Cresci numa família boa parte ausente (minha mãe era e ainda é professora e trabalha pelas manhãs, meu pai era e ainda é vendedor e de um certo modo até mesmo empresário, e minha irmã trabalhava num supermercado, hoje é também professora), e sempre ficava na casa da minha Nona e da minha tia, até o meio-dia, quando me aprontava para ir à escola. À tardezinha, voltava para a casa de minha Nona e esperava pela minha mãe. Ia para a minha casa e basicamente apenas dormia.

Durante o ensino médio, foi a mesma coisa: estudava pelas manhãs e tardes. Saía de casa antes de todos acordarem e chegava às seis da tarde. Basicamente, durante toda a minha vida os estranhos fizeram boa parte dela. Um velho que se vestia de criança me moldou no adolescente que sou hoje, humorístico e sensível, assim como um pica-pau me ensinou outros mil valores e piadas. Os estranhos, desconhecidos, alienígenas.

Então, sendo assim, nunca exatamente recebi o clássico conselho: “não fale com estranhos.” É provável que nunca tenha ouvido um “não aceite doces de estranhos”, mas também nunca nenhum me ofereceu, o que foi uma pena, porque eu adorava doces e gostava de conversar. A coisa mais certa que conheço é que ora ou outra precisará falar com algum estranho, e é engraçado que a “sociedade” nos faça pensar que são todos uns malucos, usando sobretudo longo, de óculos escuros e um fedora bege (provavelmente não possuem muito cabelo também, e tem uma barbinha escrota).

Os estranhos que conheci nos meus três dias em Santa Maria não são assim. Alguns tem um curto cabelo grisalho, outros uma barba espessa e bonita, outros cabelos longos e um cavanhaque, outras são morenas lindas. São jornalistas com anos e anos de trabalho, estudantes de Cinema, escritores amadores, fotógrafas iniciantes. Todos diferentes. Todos importantes. Todos estranhos.

A todo momento conhecemos gente nova, gente que não tem nada a ver uns com os outros, ao passar por eles pela rua, ao pedir por um café, ao pagar a conta do restaurante. E quem sabe quantos desses são importantes? Bom, todos, mas quantos podem te ajudar na sua vida? Essa é a questão. Falar com estranhos provoca isso, a sensação de começar a conhecê-los, mesmo que pouco. E em apenas três dias recebi um pedido para ajudar num incrível curta-metragem, conheci alguém que me ajudará na minha carreira como escritor e muito mais.

É sempre bom conversar com algum desconhecido legal. Tem gente que já comecei a conversar numa livraria apenas porque eles me olharam estranho quando comecei a falar sozinho com os livros. E numa outra livraria, esta em Santa Maria, num desses três dias, o falar com estranhos me rendeu a descoberta de um local para lançar O Feiticeiro. Networking, acho que é a palavra que estou procurando. É assim que funciona o mundo artístico, principalmente — o cinematográfico, então, nem se fala. Mas o meu networking é com pessoas diversas, com alguns aqui, alguns ali, outros que nada tem a ver com artes e na verdade são gastrônomos, enfermeiros e advogados.

Creio que o ponto principal da vida seja a conversa, o poder da fala. Essa é a grande coisa que tanto os sofistas quanto os filósofos descobriram, e foi o que os tornou tão famosos. A fala o torna em quem você quer ser e quem você é. Assim como a escrita, ela tem poder, um imenso. Usamos ela para transmitir nossos sentimentos e pensamentos. É justamente por isso que se recomenda reler seus textos em voz alta, porque é a partir da fala, das palavras, que tudo começa a acontecer.

Diziam no ensino fundamental que eu era intrometido. Não sou. O que sou é um networkeiro, sempre me colocando cá e lá para agarrar qualquer brecha de conversa e oportunidade para me apresentar. Bom, talvez essa seja a definição de intrometido…


Lucas Zanella

No blog posto geralmente textos de opinião assim como também histórias curtas. Aqui você encontrará fantasia, terror e ficção científica. Talvez até mesmo algum drama ocasional.

2 Comments

  1. Adorei Lucas, pois me representou um pouquinho. .. em minha infância e adolescência era tida como metida. E no entanto vivemos somente no afã de um fresta de existir a partir da palavra. Beijos da Tia que admira.

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