Simplório

Thumbnail

Sentado na caverna escura, coberto de folhas de bananeira, o simplório aguardava pelo retorno do sol. Ele não era como o urso que vagava pela floresta ou mesmo como o lobo domesticado deitado em algum lugar ao seu lado: os pelos que tinha no corpo eram poucos, não lhe cobriam por completo. Ao chegar da noite e da lua, ele precisava parar de caçar e entrar na caverna para se proteger. Mesmo assim, nunca fora o suficiente. Foi apenas tempos atrás que ele viu as folhas da bananeira, lá em cima, simplesmente balançando junto do vento. Foi uma árdua tarefa subir o tronco da árvore, mas no fim valeu a pena. Não apenas conseguiu meios de se proteger do frio intenso como também arranjou comida por algum tempo.

Agora, tanto tempo depois, os cachos uma vez amarelos e grandes agora estavam se empretecendo e acabando. A caça não andava bem, havia uma escassez de animais. Volta e meia ele olhava para o lobo doméstico e se perguntava o que aconteceria primeiro: ele teria de matá-lo, ou então o lobo o mataria para se alimentar. Foi pouco tempo depois de o domesticar que descobriu que tinham as mesmas necessidades, desde a urina até a vontade de comer.

Sentado e enrolado nas folhas, algo se mexeu ali por perto e o simplório notou ser o lobo doméstico que se aprochegou. Sentiu o pelo macio por conta do banho que o bicho tomara antes. Foi com o animal que o homem aprendeu a se banhar, mas a caça era mais importante, e portanto essas luxúrias ficavam sempre para depois. Aconteciam, mas eram ocasiões especiais.

Sentindo o calor que emanava do lobo, o simplório dormiu. Não foi por muito tempo. Logo mais foi acordado pelo animal, que latia baixinho e rosnava para a entrada da caverna. De lá, o simplório notou, saia uma luz como a do sol quando já estava morrendo. Ouviu uma voz, mas não entendeu o que ela disse. Não era nenhum animal que conhecia.

Ele tentou se agarrar ao lobo por conta do súbito medo neandertal que sentia, mas ele, curioso como sempre, se desvencilhou e correu para fora da caverna. Antes de sair de verdade, olhou para trás com seus olhos marrons e aguardou. Aquela era uma relação em que ora o que mandava era o homem, ora o lobo doméstico.

Levantou-se com moleza por conta da sonolência, mas seguiu seu animal, que virou a cabeça satisfeito para a saída da caverna. Para demonstrar seu descontentamento com a intenção do animal de seguir aquela luz, o simplório conseguiu proferir uma frase:

– Nuh – sua voz ainda estava embriagada de remela, mas se notava o tom imponente e de mandato naquele som rouco e grave.

Não adiantou, o lobo doméstico saiu para o luar e àquela luz. Podia até ter passado pela mente do simplório a vontade de deixar o bicho ir sozinho, mas seu senso de companheirismo falou mais alto.

O que viu lá fora foi algo que nunca antes teria imaginado, mesmo naquelas imagens que via enquanto dormia e logo se esquecia quando acordava. Era uma criatura que flutuava, mas não como os pássaros flutuam. Essa criatura não batia asas, estava completamente imóvel em pleno ar. Possuía braços, mas não os movimentava para ter equilíbrio. Por conta das tantas vezes que o simplório já tentou imitar os pássaros, ele também saiba que de nada adiantaria os movimentos.

Numa das mãos, porém, ele segurava algo brilhante como o sol da manhã. Era dali que vinha a luz que inundara a caverna. Para se proteger do brilho, o simplório cobriu os olhos. A criatura falou, mas era algo que o homem não conseguia identificar. Era um som completamente novo, não pertencia a animal algum.

O ser flutuante estendeu a mão com o laço brilhante.

– Tome – disse ao ver que o outro exitava. – Use-a bem.

O simplório estendeu a mão e tocou a coisa. No processo, sentiu a pele da criatura. Era macia, quente, e pôde mesmo sentir o gosto de mel dourado que ela teria.

Com a bola de brilho intenso na mão, olhou para a criatura que esperava. Sentiu que deveria exprimir algo, mas não tinha conhecimento para isso. Então deveria fazer algo. Aproximou-se de uma árvore ali perto e espremeu a coisa contra ela. O tronco iluminava-se mais e mais na medida em que o brilho penetrava. Quando enfim a coisa a tocou por completo, a árvore explodiu em milhões de brasas que saltavam até o céu e além.

O simplório correu com a explosão, o lobo doméstico o acompanhou com um uivo. Aproximando-se novamente, tanto homem quanto animal sentiram o calor invadir-lhes o corpo. Era noite, a lua brilhava junto das estrelas milhões de quilômetros acima deles, mas logo ali, naquele pedacinho de terra, era a mesma coisa que o dia mais iluminado que já existiu.

O lobo se aproximou ainda um pouco mais e se aninhou nele mesmo. O simplório sentou-se ao seu lado e cruzou as pernas. Foi então que percebeu que a criatura já desaparecera. Fora de volta para o lugar de onde viera, supôs.

Observando a árvore e suas folhas ardentes, o simplório percebeu que saberia como repetir o processo, mesmo sem o laço brilhante que a criatura lhe dera. Em pensamento, agradeceu-lhe, sentiu-se honrado por ter sido auxiliado por um ser tão inteligente.

Viu, ao longe, que mais animais se aproximavam para investigar o que era aquele brilho inusitado. No fim das contas, o dia não terminava na noite e as noites não mais seriam frias.

 


Lucas Zanella

No blog posto geralmente textos de opinião assim como também histórias curtas. Aqui você encontrará fantasia, terror e ficção científica. Talvez até mesmo algum drama ocasional.

Comente a postagem! :)