Um como outro qualquer

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Sentado na excitante aula de Teoria e Práticas de Leitura, sentado no meio da classe pois a turma já havia se empanturrado para dentro da sala antes mesmo de eu chegar à porta, eu estava pensando numa coisa. A turma que assiste a essa aula é tanto a minha como a turma de Português-inglês, sendo assim são setenta e quatro alunos espremidos numa sala gigante.

Olho para todos os meus lados. Atrás de mim há uma parede, à minha frente estão vinte pessoas, aos meus lados mais umas quarenta. Nesse instante eu percebo uma coisa que até então eu mal havia percebido: eu não existo.

No sentido espaço-tempo, sim, é claro, mas na quinta-feira próxima eu chegarei na aula e darei um “oi” para a professora. Ela retribuirá meu cumprimento, talvez com um “boa tarde”, e então seguirá com a aula normalmente. O caso não é que meu dizer não significará algo, mas sim que ela sequer saberá o meu nome. São setenta e quatro alunos nas aulas de turmas conjuntas, e mesmo assim são trinta e tantos alunos só no curso Português-francês que eu faço. De todas as pessoas com as quais eu tive aula, talvez apenas uma delas se lembrará do meu nome logo nos primeiros períodos da segunda-feira. Em nenhuma aula, porém, eu “me destaquei”, como creio que sirva colocar. Talvez duas ou três vezes eu tenha feito parte da turma rir com algo que eu disse, mas apenas isso em uma semana inteira, o que em tempos estudantis podem significar quase um ano completo e diplomado.

Talvez o que esteja falando na verdade seja a depressão de início de curso, mas não me sinto deprimido. Estou sim numa cidade completamente nova, numa casa completamente nova e neste mesmo instante sentado num chão duro cuja única coisa que me separa da madeira mesmo é uma breve manta azul e vermelha que dobrei cinco vezes para que não me machucasse, e mesmo assim duvido que dormirei direito. Neste todo lugar, mais de trezentos mil habitantes, a única coisa que me é realmente familiar é o chão do apartamento em que estou morando, num padrão de madeira horizontal-vertical semelhante ao de toda a minha casa a mais de nove horas de distância num ônibus quente (minto: o chão da minha casa é um tanto quanto mais limpo e lustroso).

Creio que seja melhor para mim esperar, talvez até o início do segundo semestre eu já ter alguns amigos e até mesmo as professoras saibam o meu nome. Se Deus quiser, até mesmo alguns colegas desistam e assim a turma fique como deve ser, esparsa, meio vazia, com cada um ouvindo o outro. Do jeito que está, eu mal ouço meus próprios pensamentos conturbadores.

Num outro tempo minha mãe vivia me dizendo que não sou todo mundo, mas ao que tudo indica eu muito bem sou. Mas não quero ser. Quem em sã consciência quer ser igual ao outro, ou quer que todos sejam do mesmo jeito, se vistam da mesma maneira, ajam do mesmo modo, pensem igual etc? Na minha concepção de vida, eu realmente não sou todo mundo. Não sou um como outro qualquer, sou minha própria pessoa e minha própria pessoa é muito esquisita, obrigado. É assim como eu a quero, diferente.

Numa cidade como essa, repleta de carros brancos, pretos ou pratas, você me encontrará dentro do verde.

Será que tomei meu remédio hoje?

Eu acho que sim.


Lucas Zanella

No blog posto geralmente textos de opinião assim como também histórias curtas. Aqui você encontrará fantasia, terror e ficção científica. Talvez até mesmo algum drama ocasional.

25 Comments

  1. Isso ai guri continua escrevendo , tu tens talento e a forma de se expressar e livre, continua assim e o resto e resto Tamo junto 🙂

  2. É incrível como as pessoas não entendem o que é liberdade de expressão. A internet é um local livre, então quem entra aqui e quem lê as coisas que aqui estão, faz isso de forma espontânea. Continua escrevendo!

  3. Filho! Aproveite essa popularidade momentânea e publique vários de teus MARAVILHOSOS textos, com certeza as pessoas irão ler e comentar, pois sabemos que sua postagem foi um desabafo por tudo que aconteceu no último mês, não está sendo fácil pra ninguém a casa está vazia sem você, mas vc precisa criar asas e ir em busca de teus sonhos!! Saudades e estamos torcendo por você com carinho Mãe e Pai…

  4. Mano! Quanta ignorância das pessoas! As pessoas não enxergam qua do saímos de casa e tudo se torna novo, a distância da família, um curso complicado, uma casa sem nada dentro onde vamos morar, e pelo jeito também não sabem interpretar textos, pois não perceberam que foi apenas um desabafo, mas estamos aqui torcendo por você, pois sabemos que tens um futuro brilhante!! Amamos você Bjo Larissa

  5. Pessoal as pessoas costumam fazer coisas para não entrarem em parafuso, uns procura festas, outros drogas, outros bebidas, e a quem goste de escrever e se nao fosse por essas pessoas que gostam de escrever o que seria de nós meros leitores sem seus escritores?? Continue escrevendo jovem, seus textos são MARAVILHOSOS, e não está pagando mico algum está apenas se expressando da maneira mais saudável! Tolos são todos esses que não entendem!! Parabéns tens o dom divino da escrita pelo jeito és muito leitor também!

  6. Que ridiculo kkkkkkkkkkk Passou vergonha falando essas coisas sério, 100% desnecessário, tens algum probleminha? Acho que sim ja parou pra pensar? Que o problema pode não ser as aulas lotadas ou os professores e sim você mesmo??? Se toca e para de pagar micão migoooooo que ta feioooo sério kkkkkkkkkk Bjs lindo

    • Ué, o mico, aparentemente é meu e se eu quiser eu o torno milionário. Mas pelo menos não sou eu me escondendo por trás de um falso anonimato na internet…

  7. Meu DEUS! Quanta babaquice! O texto é maravilhoso, e é difícil sim se acostumar com a vida nova! Quem nunca passou por isso!

  8. Não é dessa forma que conseguirás algum espaço no curso, deverias ter o pensamento contrário. Entraste na faculdade para fazer os colegas rirem e ser notado pelas professoras? Não é mais ensino médio, estuda e faz a tua ao invés de desejar que teus colegas desistam.

    • Se deus existisse, rezaria todos os dias para não me tornar alguém como você. Se deixa sua humanidade para trás assim que entra na faculdade, o que resta de você senão uma cápsula vazia, mais um soldado do exército educacional?

  9. migo, que vibe ruim querer que as pessoas desistam da facul pra tu ganhar mais espaço e aparecer mais pra profe. eu sei que eh difícil se adaptar a uma nova rotina e nova cidade (been there done that), mas eh meio foda querer que as pessoas simplesmente não façam a graduação pra tu “ser alguém”. não achei top

    • Peço perdão pelo vacilo. O problema é que também entra em jogo TDAH e fobia de lugar com muitas pessoas. Tentarei topezar mais no futuro.

      • a madame entende o quão egoísta eh querer que as pessoas literalmente desistam da faculdade pra conseguir impressionar os professores? não eh mais ensino médio fofa onde participação em aula ganha ponto… wake up
        se teu objetivo era criar empatia com os coleguinhas trago notícias tristes: todo mundo vai se aproximar de ti agora que tu declarou que prefere que todo mundo vá embora da faculdade pra tu ganhar 5 minutinhos no holofote da profe. e se o objetivo era que a professora desse mais que um “boa tarde”, na próxima quinta a gente levanta e bate palma, pausa o andamento da aula e desperdiça o tempo de todo mundo pra tu se sentir melhor
        mas agora sério… a vida não eh um clipe da taylor swift flor, tem tanta coisa mais pra se preocupar do que se a profe vai botar estrelinha no teu nome no mural
        e tu pode ter esses transtornos e fobias aí, se trata e vai melhorando. mas tu nunca vai conseguir deixar de ser egocêntrico. e meio sem noção, se me permite dizer

    • Concordo, sabemos tão pouco sobre o mundo e a própria existência que só nos resta, afinal, duvidarmos até o fecho da vida que levamos.

  10. Nunca vai se destacar forçando algo. Além de feio, é algo bem infeliz. Deveria ter vergonha de desejar que teus colegas desistam, isso não vai te fazer o queridinho e muito menos o melhor. Dica.

    • Gente, se eu ainda estivesse tão depressivo quanto quando escrevi essa postagem…

      P.S.: Não desejo que desistam, principalmente agora que já me acostumei e gosto de todos eles. Todos, mesmo você, srta.

  11. Tu devia ter vergonha de desejar que teus colegas desistam do curso. E sim, a maioria sabe teu nome, mas não é por um bom motivo. Abraço.

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