Uma breve dissertação sobre Morte Súbita, ou então: “como odiar o seu livro favorito”

Cá estou eu, fazendo o que disse que nunca faria, obrigando-me a escrever a resenha de um livro que li. Mas não se preocupe, isso é apenas um caso especial, algo que venho matutando sem parar há algum tempo. Um escritor escreve para enfim parar de pensar, vomita palavras no papel digital para que elas saiam de dentro de si e parem de lhe incomodar. É isso o que vou fazer, então sente-se, pegue um refrigerante, talvez faça um cafezinho. Sente-se e relaxe, isso vai ser rápido, divertido e, quem sabe, no final você pode tirar algo disso tudo, sim?

JK Rowling disse que PRECISAVA escrever esse livro. Bom, e eu preciso escrever essa postagem.

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Se tem algo que percebi quando li algumas resenhas americanas sobre o livro foi que os críticos estavam esperando um novo Harry Potter, e olhavam para a história julgando-a como uma sequência à série. Porra, tem uma bela razão para dizer adulto em vez de infantil no gênero literário. Morte Súbita é escrito pela mesma mulher que entreteu crianças ao redor do mundo, e isso se nota em cada parágrafo, em cada primeira frase de começo de capítulo (ou subcapítulo), mas não é a mesma mesma mulher. JK não disse estar fazendo uma certa afronta, não disse que queria mostrar que sabia escrever para gente grande também, e eu nem vi algo do tipo na história.

Tudo o que eu vi foi uma história, e uma muito boa. Mas, como toda história, ela tem falhas, e é dela que vou falar aqui:

A TERCEIRA PESSOA ONISCIENTE

É um estilo de escrita que eu não exatamente odeio, mas a bela autora conseguiu me fazer odiar. Veja, Pagford é uma cidade pequena, mas parece gigante quando percebemos o quanto de personagens são importantes para a história. Os personagens PoV, com ponto de vista, são o que há de excessivo na contação das loucuras da cidade. Eu até me conformo com a política que fica de certo modo até divertida, mas nunca me conformarei com a quantia de personagens.

Mesmo que tenham relevância para a trama e tudo o mais, apenas alguns são os que me pareciam bons: todos os adolescentes, a exceção de Gaia, e Samantha. Tudo bem que acho fascinante o arco com os Wall e a história de Howard e Shirlley, mas mesmo assim eu devo poder dizer abertamente que, tivesse escrito o livro, teria dado uma diminuída.

Mas Deus bem sabe que nesse momento ESTOU escrevendo um livro que se passa numa cidadezinha onde grandes merdas acontecem, um livro que não fará tanto sucesso quanto esse, e senti uma certa inveja. Os arcos de história em Morte Súbita são muito bem desenvolvidos, e ainda nos dá a sensação de que a autora teve tudo planejado antes de escrever (talvez até mesmo tenha um desenho do braço de Sukhvinder, para saber onde ficavam todas as cicatrizes)… Isso é algo que não fiz e mais que certo nunca farei. Dá, porém, uma boa sensação ao ler a história, ver que tudo está ocorrendo bem como deveria. JK não é uma escritora que descobre tudo enquanto escrever, ao contrário de pessoas como Stephen King (e eu também, ora essa), e isso se nota.

É algo bom, mas também gosto das histórias de King, então não sei dizer qual é o certo. Talvez eu mesmo tenha descoberto o segredo e nem saiba, mas acho que isso é me dar crédito demais. A única coisa da qual tenho certeza é de que Simon Price não precisava de narração, assim como Ruth e Gaia. Certo momento pensei, ao ler, “não é a toa que o livro tem tantas páginas, essa mulher não consegue parar de introduzir personagens”.

Posso achar defeitos em cada canto do livro (e cada “que” onde deveria haver um “quem” me irrita), falando da história, mas também talvez seja por isso que eu gosto tanto dele. E a linguagem, JK tem uma voz que parece ser a de uma mulher que conta uma história a uma criança, dessa vez uma história que vai traumatizar o bebê. Não ligo para o final deprimente, na verdade o achei bem apropriado.

Fechei o livro há uns dez minutos, depois de passar a madrugada revezando entre lendo a história e assistindo o seriado da HBO, adaptação dela mesma, e só posso dizer uma coisa: fico feliz por Parminder ter mudado seu tratamento para com a filha.


Lucas Zanella

No blog posto geralmente textos de opinião assim como também histórias curtas. Aqui você encontrará fantasia, terror e ficção científica. Talvez até mesmo algum drama ocasional.

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